Política

Opinião: Por que nossos estudantes não querem ser professores?


Wilson Galvão*

A frase parece óbvia, mas vale a lembrança: não há escola sem professor, sem aluno e sem conhecimento científico. Para ter aluno, a escola precisa oferecer condições adequadas e a família não pode negligenciar sua responsabilidade de garantir que as crianças sejam matriculadas. Uma vez na escola, o estudante tem o direito de receber uma formação ancorada nos conhecimentos científicos e na cultura construída pela sociedade no decorrer do tempo. Ao professor, cabe a responsabilidade de dominar esses conhecimentos, desenvolvendo métodos e técnicas para que ocorra o ensino e a aprendizagem do aluno. 

Em alguns países do extremo Oriente, como a Coreia do Sul, que atribui à Educação a transformação social, cultural e econômica do país nas últimas décadas, e que conduziu os sul-coreanos ao grupo dos países mais desenvolvidos do mundo, ser professor é uma das profissões mais admiradas e respeitadas na sociedade, com o mesmo status de outros profissionais também reconhecidos por aqui, como o médico e o magistrado. Com isso, não surpreende o fato de o magistério ser uma carreira profissional concorrida naquele país, atraindo o interesse dos estudantes. Um paradoxo se comparado ao Brasil, onde a docência, sobretudo na Educação Básica, atrai cada vez menos interesse dos jovens. 

Por que os estudantes brasileiros não se interessam pelas carreiras do magistério? É certo que cada leitor tem uma lista de fatores. Ou seja, com maior ou menor profundidade, sabemos onde estão os problemas. Um deles, certamente, é a falta de valorização do trabalho docente e da compreensão da relevância que essa profissão desempenha para uma sociedade que deseja se desenvolver.  No passado, na Coreia do Sul e em outros países da região, como o Japão, os professores eram os únicos cidadãos que podiam andar ao lado do imperador. E mais: se curvar diante do outro, gesto muito comum de demonstração de respeito e reconhecimento na cultural oriental, era algo que o imperador só fazia diante de um professor.  

Por que no Brasil parte da sociedade ainda não reconhece seus mestres? Certamente você também deve ter muitas respostas para esse questionamento. Mas convém perguntar: até que ponto os professores precisarão continuar provando que são relevantes, necessários, fundamentais? A permanência das crianças em casa em tempo integral devido ao isolamento social ajudou muitas famílias a vivenciarem parte da realidade da educação de seus filhos, reconhecendo a importância do trabalho docente até mesmo por tentarem absorver parte do papel dos professores. Não é fácil, não é mesmo?!

A pandemia desafiou muitos profissionais, e entre os mais desafiados, figuram os professores. Eles tiveram que se adaptar, incorporando novos métodos e ferramentas às suas práticas. De um dia para o outro viraram youtubers, redatores, digital influencers e etc. Abriram suas casas, suas vidas, se entregaram, tudo isso para ensinar, mas também para não perder o vínculo com o estudante, mantendo o afeto na espera pelo dia do retorno às atividades presenciais. Devemos reconhecer esses bons exemplos e nos curvar diante destes professores incansáveis que, a despeito da falta de apoio, de reconhecimento e até de respeito, mantêm firme seus propósitos de vida, estudando, aprimorando técnicas e métodos, buscando novidades, investindo seus recursos em instrumentos para educar os estudantes brasileiros. A Educação é o meio mais seguro para transformar a realidade. Precisamos, urgentemente, nos curvar diante dessa verdade e praticar o reconhecimento aos principais protagonistas dessa mudança: nossos bons professores. 

 

*Wilson Galvão é coordenador de Assessoria de Áreas do Sistema Positivo de Ensino.


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