Gestos simples que facilitam a interação com um autista: “Inclusão não é sobre aceitação, mas respeito”, diz uma mãe

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um distúrbio neurológico que compromete a interação social, comunicação verbal e não verbal. Por isso, para interagir bem com uma pessoa que tem a condição, é importante conhecer algumas de suas características e, principalmente, se livrar de certos preconceitos. Nessa reportagem vamos conhecer algumas histórias inspiradoras de alunos do Sesc-DF que encontraram maneiras de superar obstáculos, além de aprender junto com os pais a celebrarem suas conquistas

Foto: Felipe Menezes.

A atividade física e os esportes oferecem uma ampla gama de benefícios para todas as pessoas, o que não é diferente para aquelas no espectro do autismo. Com isso, diversas modalidades trazem benefícios para crianças e jovens com autismo em áreas que, geralmente, têm mais dificuldades. Melhora as habilidades motoras, condicionamento físico, funcionamento social, força e resistência musculares.

E foi na natação que o Rodolfo Radames, hoje com 27 anos, encontrou estímulos para melhorar sua autonomia. Entre um nado e outro, o discreto jovem mostra o que aprendeu desde pequeno, quando seu pai o incentivou a praticar seu primeiro esporte. Duas vezes por semana ele vai às aulas na unidade do Sesc em Ceilândia, e não abre mão de sua corrida e caminhada todos os dias. Pouco extrovertido, Rodolfo é extremamente querido na unidade e muito determinado. Na água, ele domina cada movimento do seu corpo e mostra que o autismo não define quem ele é.

O jovem já disputou torneios e se declara para o esporte. "Não gosto de ficar sem fazer nada. Venho para o Sesc porque aqui eu me sinto bem, as pessoas me respeitam e me amam", diz ele em um dos poucos momentos de diálogo. Inquieto, Rodolfo gosta mesmo é de colocar a mão na massa e gastar energia. Sua mãe, dona Leda Celina, conta que o filho é apaixonado pelas aulas de natação e não gosta de faltar nenhum dia. Faça chuva ou faça sol.

"No Sesc eu me sinto segura com o Rodolfo porque aqui nós temos quem nos respeita. Eu digo para todo mundo que é a extensão da nossa casa", confessa Leda.

Mas, engana-se quem pensa que a escolha pela natação foi algo fácil para o Rodolfo. Aos 18 anos de idade ele viu seu pai falecer nos seus pés, pouco antes de mais uma de suas aulas de natação. "Foi terrível, a partir desse dia o Rodolfo regrediu muito. Foi um baque", revela a mãe.

Dona Leda conta que eles carregam a ferida até hoje. Segundo ela, toda essa dificuldade deixou Rodolfo mais solitário, mas também foi o que ajudou o jovem a se fortalecer e seguir com mais força no esporte. "O pai dele quando descobriu que ele era autista largou o emprego e se dedicou inteiramente a estudar sobre o autismo. Era um cara apaixonado pelo filho que tinha e o Rodolfo sabe disso", conta.

Educação inclusiva
O processo de aprendizado é diferente para cada pessoa e o desenvolvimento de métodos para que a educação seja acessível a todos é fundamental. Para isso, as escolas do Sesc-DF reforçam a importância de incentivar ações que promovam a equidade no processo de aprendizado ao considerar pessoas que tem o comprometimento do funcionamento intelectual, como por exemplo, o autismo. A educação inclusiva para pessoas com autismo exige que cada estudante tenha suas demandas atendidas de acordo com suas especificidades.

É esse apoio que pais de crianças com autismo encontram ao matricularem seus filhos nas escolas EduSesc, que contam com profissionais preparados para lidar com a fase estudantil, além de um núcleo para atendimento educacional especializado, chamado de AEE.

Artur Campos, 12 anos e Pedro Esteves, de 16 anos, são alunos na EduSesc de Taguatinga Norte. Com autismo e personalidades diferentes, ambos estão na escola há certo tempo e atualmente estão acostumados com suas turmas e amigos. Mas, nem sempre foi assim. Quem conta esse processo são eles mesmos. "Antes de vir estudar no Sesc eu era de uma escola militar. Foi muito difícil para mim essa mudança de colégio. Eu geralmente gosto de ficar no meu canto e tive que me acostumar com uma nova rotina", disse Pedro.

Ele conta como recebeu o apoio no Sesc-DF e o que isso representou na sua vida. "No início eu fiquei confuso com a mudança do ensino fundamental para o ensino médio. Mas me ajudaram muito nessa adaptação, minha mãe pediu para me colocarem de manhã e ajudaram ela nisso também. Respeitam o meu tempo", conta Pedro.

Já o Artur é um garoto extremamente ativo, comunicativo e extrovertido. E quando o assunto é autismo ele não tem dúvida, o que falta para as pessoas é informação e respeito ao próximo. "Acontece que nós somos muito discriminados. Não tem muita informação, é como se autista não fosse nada. E nós somos normais. Autista cresce e vira adulto, tem adulto autista, sabia?! Então para que ficar debochando sem saber?", indaga o menino.

A luta contra o preconceito
Atualmente em nossa sociedade, fala-se muito em respeitar as leis da inclusão. Mas, na prática isso parece ser muito diferente. Dona Leda, mãe do Rodolfo, contou que sofre discriminação quase todos os dias. "Quando eu vou com ele no shopping quase sempre me sinto constrangida. Ele além de ser autista é um garoto negro e isso gera mais problemas para a gente. Os seguranças nos seguem achando que vamos roubar ou furtar algo, simplesmente porque preciso andar com uma mochila que contém as coisas do Rodolfo como roupa, frutas e etc", conta Leda.

O preconceito contra pessoas com o Transtorno do Eespectro Aautista (TEA) ainda significa obstáculo para o desenvolvimento social. Seja na escola, nas ruas ou dentro da própria família, eles passam por situações constrangedoras, que podem desencadear novos problemas. "Já chegaram a agredir o Rodolfo porque confundiram ele com um ladrão de bicicletas. Na hora do nervosismo ele trava e não fala nada", contou dona Leda.

Com todas as dificuldades enfrentadas pelas crianças com autismo, torna-se cada vez mais comum o preconceito nas escolas, que surge por parte dos coleguinhas. Mas, o pequeno Artur faz um alerta. "Somos vítimas de diversos tipos de preconceitos. Eu vi uma vez um menino chamar outro de Down só porque ele tem síndrome de Down. A professora corrigiu ele e ele disse: oi seu síndrome. Essa discriminação não pode ser normalizada", reforça o garoto.

Mês Pro Autismo no Sesc-DF
O dia 2 de abril foi estabelecido como o Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo. A data foi determinada em 2007 com o objetivo de difundir informações para a população sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e assim reduzir a discriminação e o preconceito que cercam as pessoas afetadas pelo autismo. E para jogar ainda mais luz sobre a data, o Sesc-DF promoveu durando todo o mês, uma programação diversificada que contou com palestras, rodas de conversa, lazer e muita informação para a população.

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