Lideranças policiais defendem protagonismo da investigação e criticam "especialistas de gabinete" em debate no Foco Talks



Lideranças da Cobrapol e Sinpol-DF debatem a valorização da carreira, a explosão dos cibercrimes e a urgência de políticas públicas feitas por quem vive a realidade policial



A segurança pública no Brasil enfrenta um momento de inflexão, onde o crime migra das ruas para o ambiente virtual e as forças de segurança lutam por valorização e estrutura. Este foi o tom do episódio especial do podcast Foco Talks, conduzido por Paulo Melo, que reuniu duas das principais vozes da Polícia Civil na atualidade: Giancarlo Miranda, presidente da Confederação Brasileira de Trabalhadores Policiais Civis (Cobrapol), e Luana Ávila, vice-presidente do Sinpol-DF.

O encontro não foi apenas uma troca de experiências sindicais, mas um diagnóstico contundente sobre as falhas estruturais que impedem o Brasil de vencer a guerra contra o crime.

A "dupla paternidade" e o desafio de Brasília

Luana Ávila, investigadora oficial da PCDF, trouxe à tona uma peculiaridade que torna a gestão da segurança na capital federal um desafio único: a chamada "dupla paternidade". A Polícia Civil do DF é subordinada administrativamente ao Governo do Distrito Federal (GDF), mas custeada pela União através do Fundo Constitucional.

"Nossa negociação salarial é cruel", desabafou Luana. Ela explicou que, diferentemente de outros estados onde tudo se resolve na assembleia legislativa local, no DF é preciso convencer o governador e, em seguida, peregrinar no Congresso Nacional para garantir o orçamento federal.

Apesar das dificuldades, a líder sindical confirmou que o recente acordo de reajuste, negociado com o Ministério da Gestão e Inovação, será honrado. "O aumento vai sair", garantiu, ressaltando o papel estratégico da articulação entre as entidades de classe e a bancada do DF para destravar o pleito.

Disparidades regionais e a fronteira aberta

Enquanto Brasília discute o Fundo Constitucional, o resto do país vive um abismo de desigualdades. Giancarlo Miranda, policial civil há 22 anos no Mato Grosso do Sul, expôs a realidade nua e crua das fronteiras. Ele relatou episódios em que delegacias na linha de fronteira com o Paraguai foram alvejadas por rajadas de fuzil de traficantes, numa tentativa de impor o terror.

"O policial civil que está na fronteira, muitas vezes ganha um salário base, enquanto o policial federal ao lado dele recebe um adicional de fronteira que, sozinho, quase equivale ao salário do civil", comparou Giancarlo.

O presidente da Cobrapol defende a urgência de um piso salarial nacional e critica a falta de vontade política. Ele citou a disparidade entre estados como o Amazonas, com salários iniciais altos, e a Paraíba, que figura entre os piores do país, para desempenhar a mesma função investigativa.

Cibercrime: O novo campo de aatalha


Um dos pontos altos do debate foi a análise sobre a migração do crime. Luana Ávila alertou que, impulsionado pela pandemia, o crime "saiu da rua e ocupou as redes". Dados citados por ela apontam um aumento de 400% nos crimes virtuais nos últimos quatro anos.

A crítica das lideranças é que a política de segurança pública ainda foca excessivamente no policiamento ostensivo (viaturas na rua), que gera sensação de segurança, mas não resolve a investigação de crimes complexos e estelionatos digitais. "Se a segurança pública não acompanhar essa mudança, ela ficará ineficiente. O bandido percebe que é mais arriscado estar fisicamente na rua e migra para o golpe virtual", explicou Luana.

Crítica aos "wspecialistas de gabinete"

Tanto Giancarlo quanto Luana foram enfáticos ao criticar a formulação de políticas de segurança por pessoas alheias à realidade operacional. "Vemos especialistas em economia e artistas falando de segurança, mas não vemos policiais", disparou Giancarlo.

A defesa das entidades é pela criação de um Ministério da Segurança Pública autônomo, separado da Justiça, e composto por operadores que conheçam o cheiro da pólvora e a realidade das delegacias, não apenas por acadêmicos.

Sobre a recente operação no Rio de Janeiro e a PEC da Segurança Pública (PEC 28/PEC 18), o tom foi de cautela. Para eles, leis e integrações no papel não funcionam se o "fator humano" for ignorado. Giancarlo lembrou que, enquanto a família de um Policial Militar morto em serviço tem garantias de pensão robustas, a família de um Policial Civil muitas vezes fica desamparada, dependendo do tempo de serviço do agente.

O papel do sindicato

Ao final, ficou claro que o papel de entidades como a Cobrapol e o Sinpol-DF transcende a briga por salários. Elas atuam onde o Estado falha: no suporte jurídico ao policial que responde a processos por trabalhar, no apoio à saúde mental de uma categoria adoecida e na defesa de uma sociedade onde a investigação criminal seja técnica, eficiente e valorizada.

Como resumiu Giancarlo: "Nosso objetivo não é corporativista. Queremos que a sociedade tenha segurança de qualidade. Mas, para isso, quem nos protege precisa ser protegido."

Para assistir ao episódio completo e entender os bastidores dessa discussão, acesse o link: Foco Talks - Episódio Especial

Emerson Tormann

Técnico Industrial em Elétrica e Eletrônica, especializado em Tecnologia da Informação e Comunicação. Atualmente, é Editor-Chefe na Atualidade Política Comunicação e Marketing Digital Ltda. Possui ampla experiência como jornalista e diagramador, com registro profissional DRT 10580/DF. https://etormann.tk | https://atualidadepolitica.com.br

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