Novo sistema muda lógica de arrecadação, afeta caixa, tecnologia e decisões estruturais das empresas
A Reforma Tributária brasileira inaugura uma das mais profundas reorganizações do ambiente de negócios das últimas décadas. Mais do que substituir tributos ou simplificar regras, a criação do IBS e da CBS, a adoção do princípio do destino e a introdução de mecanismos como o split payment alteram a forma como as empresas operam, planejam e tomam decisões estratégicas.
Embora grande parte do debate público ainda esteja concentrada na carga tributária final, o impacto mais relevante da reforma está na mudança da lógica de arrecadação e controle, que passa a ser mais automática, rastreável e integrada aos meios de pagamento e sistemas digitais. Na prática, isso desloca o tema tributário do campo exclusivamente fiscal para o centro da gestão empresarial.
Segundo o advogado tributarista e sócio do Rocha&Rocha Advogados, Victor Hugo Rocha, a reforma exige uma mudança de postura das empresas. “O novo sistema transforma o tributo em variável estratégica. A forma como a empresa vende, recebe, financia suas operações e estrutura seus contratos passa a influenciar diretamente sua eficiência tributária”, analisa.
Um dos pontos mais sensíveis é o split payment, modelo que prevê a separação automática do tributo no momento da liquidação financeira da operação. Essa dinâmica rompe com a lógica tradicional, na qual o imposto era recolhido posteriormente, permitindo maior gestão do fluxo de caixa. “Nas vendas à vista, o impacto tende a ser imediato, pois parte do valor não transita mais pelo caixa da empresa. Isso exige revisão de capital de giro, políticas de preço e negociação com fornecedores”, explica Rocha.
Já nas vendas a prazo, o efeito é estruturalmente diferente. O split payment permite que o recolhimento do tributo acompanhe o fluxo financeiro da operação, evitando que a empresa antecipe impostos sobre receitas que ainda não ingressaram no caixa. Na prática, isso corrige um desequilíbrio histórico do sistema atual e traz alívio ao capital de giro de setores que operam com prazos longos, como indústria, atacado e serviços recorrentes, ao alinhar o pagamento do imposto ao efetivo recebimento da venda.
“Quando bem estruturado, o split payment reduz incertezas, passivos fiscais e disputas futuras. Mas isso só acontece se a empresa estiver preparada do ponto de vista tecnológico e contratual”, ressalta.
A tecnologia, aliás, torna-se eixo central da reforma. A integração entre ERPs, sistemas fiscais, plataformas de pagamento e instituições financeiras deixa de ser opcional. Empresas que operam com múltiplos canais, físico, digital, marketplace ou plataformas próprias, precisarão garantir consistência e rastreabilidade das informações em tempo real. “A reforma penaliza o improviso. Quem não tiver sistemas integrados corre risco de erros, autuações e perda de competitividade”, alerta o tributarista.
Outro efeito estrutural está na reorganização das cadeias produtivas e comerciais. Com a tributação no destino, decisões sobre localização de centros de distribuição, filiais, operações interestaduais e modelos logísticos passam a ter novo peso econômico. “A reforma tende a reduzir distorções regionais, mas também exige reavaliação de estratégias de expansão e presença territorial”, observa Rocha.
Além disso, contratos comerciais, políticas de precificação, modelos de remuneração e até a escolha de meios de pagamento precisarão ser revisados. “Não é uma reforma que se resolve apenas com ajuste contábil no final do mês. Ela exige planejamento, simulação de cenários e decisões antecipadas”, afirma.
Para Victor Hugo, o maior risco está na leitura superficial do processo. “Empresas que tratarem a Reforma Tributária apenas como obrigação futura podem perder eficiência, margem e competitividade. O período de transição é a janela estratégica para reorganizar operações, testar estruturas e transformar conformidade em vantagem”, destaca.
Nesse contexto, a atuação integrada entre as áreas jurídica, contábil, financeira, tecnológica e de estratégia torna-se fundamental. A Reforma Tributária redefine o ambiente de negócios e impõe um novo padrão de governança. Mais do que pagar impostos de forma diferente, as empresas precisarão pensar diferente.
A Reforma Tributária, portanto, não é apenas uma mudança fiscal. É uma reconfiguração estrutural que separará empresas reativas daquelas capazes de transformar complexidade em estratégia de crescimento.
Sobre o Rocha & Rocha Advogados
Fundada em 2014, em Londrina (PR), a Rocha & Rocha Advogados é um escritório com atuação nacional, especializado em Direito Tributário e voltado a grandes contribuintes. Criado a partir da experiência de Ciro Rocha, ex-auditor da Receita Federal, e da liderança de Vanessa Rocha, o escritório reúne mais de 100 profissionais, atende cerca de 400 clientes ativos e mantém operações em Londrina, Brasília e São Paulo, combinando expertise jurídica e contábil para oferecer suporte estratégico e contínuo a empresas de diferentes setores.
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