Imbróglio com debêntures expõe bastidores delicados do Estadão

 Em busca de alívio financeiro, o jornal O Estado de S. Paulo recorreu ao mercado, mas a estratégia acabou envolvendo nomes que já passaram pelo radar da Polícia Federal.

Diante de um déficit significativo, a empresa decidiu captar recursos e levantou R$ 142,5 milhões em uma operação que, segundo revelou o Metrópoles, contou com a atuação da Trustee DTVM. A gestora é ligada a Maurício Quadrado, sócio de Daniel Vorcaro, figura recorrente em investigações recentes.

Um ponto sensível é que, no momento da contratação, em março de 2024, Quadrado já enfrentava questionamentos judiciais, com bens bloqueados em um inquérito que apura suposto pagamento de propina a funcionários da Caixa. No mesmo círculo de negócios aparece Flávio Carneiro, conhecido por aquisições no setor de comunicação e citado em movimentações milionárias associadas a operações estruturadas pelo Banco Master.

As suspeitas em torno desse grupo foram ampliadas: Quadrado e a Trustee passaram a ser investigados por possíveis práticas como lavagem de dinheiro ligada ao Banco Master e esquemas envolvendo combustíveis adulterados, com menções a possível conexão com o PCC.

Sob pressão financeira, o Estadão optou por uma alternativa fora do tradicional crédito bancário e lançou duas emissões de debêntures: R$ 45 milhões em março e R$ 97,5 milhões em maio de 2024. As decisões foram aprovadas em assembleia liderada por Francisco Mesquita Neto, que também autorizou a contratação da Trustee como agente fiduciário.

Em tese, esse agente tem a função de supervisionar a operação e garantir o cumprimento das regras. Na prática, segundo o CEO Erick Bretas, o papel seria mais operacional, focado em trâmites burocráticos. Ainda assim, o fato de a empresa responsável estar sob investigação levanta questionamentos.

Entre os investidores, a participação também trouxe influência. A Galápagos Capital indicou Marco Bologna para o Conselho de Administração e passou a ter voz ativa nas decisões estratégicas, inclusive defendendo a escolha de um CEO com perfil de mercado, reduzindo o protagonismo da família Mesquita.

Mesmo com o reforço financeiro e mudanças na gestão, os resultados seguem pressionados. O balanço de 2025 registrou prejuízo de R$ 16,8 milhões. Como o vencimento das debêntures está previsto apenas a partir de 2034, podendo se estender até 2044, permanece a incerteza sobre a capacidade de recuperação da empresa.

Enquanto isso, as investigações continuam. Em janeiro, a Polícia Federal realizou buscas envolvendo Quadrado e a Trustee, no âmbito das operações Compliance Zero e Carbono Oculto, ampliando o escopo das apurações.

No fim, a tentativa de ganhar fôlego financeiro acabou colocando o Estadão em um ambiente cercado de riscos e conexões já conhecidas pelas autoridades.

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