A movimentação de Ibaneis Rocha para “realinhar posições” com a governadora Celina Leão expôs mais do que uma divergência partidária
Revelou o incômodo de um grupo político que, fora do comando direto do Palácio do Buriti, passou a assistir Celina construir uma relação própria com as ruas, com as cidades e com a máquina pública.
Em pouco mais de 50 dias à frente do Governo do Distrito Federal, Celina tem apostado em uma marca que contrasta com o estilo do antecessor: presença territorial, escuta direta e resposta rápida às demandas das regiões administrativas. Enquanto Ibaneis foi muitas vezes visto como um gestor de gabinete, distante da população e pouco acessível às lideranças comunitárias, Celina tenta ocupar o espaço da governadora que vai ao problema antes que o problema vire crise.
Nos bastidores do GDF, a leitura é que a atual governadora entendeu algo simples, mas decisivo para 2026: o eleitor quer presença. Quer ver quem governa. Quer cobrar olhando no olho. Quer resposta, não apenas discurso.
Em cidades como Paranoá, Itapoã, Riacho Fundo II e Samambaia, aliados relatam que a comparação já começa a aparecer nas conversas de rua. A avaliação recorrente é que Celina tem demonstrado mais disposição para ouvir e encaminhar soluções do que a gestão anterior fazia em meses.
Uma frase que resume o sentimento de parte da base governista é direta: “Celina está fazendo em 50 dias o que muita gente não viu acontecer em meses de governo.”
A crítica a Ibaneis, por outro lado, ganha contornos políticos mais duros. Para interlocutores da governadora, o ex-governador reclama de espaço, mas deixou de perceber que a política mudou. O eleitor não aceita mais apenas articulação de cúpula. Quer governo presente no bairro, na escola, no posto de saúde, na obra parada e na fila do atendimento público.
Entre moradores ouvidos por lideranças comunitárias, a reclamação sobre o antigo modelo de gestão era de frieza e distância. A percepção era a de que Ibaneis pouco conversava com a população e raramente retornava às solicitações feitas nas cidades.
“Parecia um robô. Falava bonito, mas não sentava para ouvir a gente de verdade”, diz uma avaliação que circula entre lideranças de regiões administrativas e que sintetiza o desgaste do estilo anterior.
Celina, ao contrário, tem buscado construir uma imagem de simplicidade e proximidade. A governadora aparece em agendas externas, conversa com moradores, cobra secretários e tenta mostrar que não governa apenas pelos relatórios que chegam ao Buriti.
Aliados citam episódios em que ela teria almoçado de marmita durante agendas nas cidades, permanecendo no território para ouvir servidores, lideranças locais e moradores. A cena, explorada politicamente, reforça a narrativa de que Celina não faz visita protocolar: ela chega, escuta, cobra e tenta resolver.
No Paranoá, a leitura de apoiadores é que a governadora tem demonstrado atenção às demandas históricas da cidade. No Itapoã, a presença do GDF é vendida como sinal de que a periferia deixou de ser tratada apenas como agenda eleitoral. No Riacho Fundo II, aliados afirmam que Celina tem ouvido diretamente quem vive os problemas urbanos. Em Samambaia, a maior aposta é transformar a presença constante em capital político para 2026.
A crise aberta por Ibaneis, portanto, pode ter efeito inverso ao desejado. Ao tentar enquadrar Celina, o MDB acabou dando à governadora a chance de se apresentar como liderança autônoma, capaz de governar sem tutela e de disputar a reeleição com identidade própria.
O ex-governador fala em prerrogativas partidárias. Celina fala com as cidades.
Ibaneis cobra espaço na chapa. Celina tenta ocupar espaço no imaginário do eleitor.
E, no DF, essa diferença pode ser decisiva.
A eleição de 2026 tende a ser menos sobre quem herdou o governo e mais sobre quem conseguiu mostrar serviço depois da herança recebida. Nesse cenário, a reeleição de Celina começa a ser defendida por aliados como o caminho mais seguro para preservar a estabilidade, manter a máquina funcionando e evitar que o Distrito Federal volte a ser refém de disputas internas.
No fundo, a pergunta que começa a circular na política local é simples: quem tem mais condição de conduzir o DF daqui para frente — quem deixou o cargo e agora cobra espaço, ou quem ficou com os problemas na mesa e está tentando resolvê-los de frente?
Para a base de Celina, a resposta já está dada. A continuidade da governadora não seria apenas um projeto eleitoral. Seria a consolidação de um novo ciclo no GDF: menos gabinete, mais rua; menos imposição partidária, mais entrega; menos passado, mais presença.
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