“Ninguém gosta de ser pobre ou de viver do Bolsa Família ou de favores, mas sim do próprio trabalho.”
Era uma daquelas inesquecíveis sextas-feiras em que a
turma que nunca cumpriu a agenda 6 x 1 sentava no Piantella ao meio-dia
para beber vinho e whisky e só saía com a noite já escondendo a luz do
sol. O Piantella era, seguramente, o melhor restaurante do país e o
lugar preferido dos políticos, intelectuais, empresários e herdeiros. Às
sextas-feiras, claro, os políticos não batiam ponto, pois a agenda 4x3
impunha o trabalho no Congresso, tanto na Câmara quanto no Senado,
somente de terça a quinta, porque ninguém é de ferro. Com o piano do
Mariozinho tocando Roberto Carlos, entrou na roda uma pessoa muito
querida, inteligente, perspicaz e bem-humorada: Mauro Santayana. E, com
um copo na mão, propôs um brinde, pois acabara de ser nomeado adido
cultural em Roma. Em meio ao brinde, um gaiato exclamou: “Este é o
emprego que eu pedi a Deus”. Ao que o grande Santayana retrucou: “Pediu à
pessoa errada; eu pedi ao Sarney!”. Nosso querido Presidente à época.
Em
um exercício de imaginação, posso imaginar os senhores de engenho,
donos de centenas de escravos, preocupados numa sexta-feira à tarde com o
murmúrio de que o fim da escravidão poderia acontecer. Sentados numa
varanda grande e aconchegante, com um indefectível copo de whisky ou de
cachaça, davam voz ao medo de perderem os negros que passavam, em escala
7x0, em frente à casa-grande. Profetizavam que seria, inevitavelmente, a
quebra do Brasil. Como sobreviveriam sem a mão de obra escrava,
ruminavam entre eles. E, ao longo da história, esse mesmo grupo, só com
retoques e cores diferentes, vem profetizando a quebra do país e o abuso
no crescimento dos direitos dos trabalhadores. O acinte de ver um
operário Presidente da República pela terceira vez, em passos largos
para a quarta vitória, no primeiro turno.
Foi
assim quando o 13º salário foi instituído. A gritaria foi grande e as
previsões apontavam para uma paralisação macabra. Da mesma maneira, o
barulho da elite perversa com a licença-maternidade e, depois, com a de
paternidade e tantas outras pequenas, mas significativas, conquistas do
trabalhador brasileiro. Mas a burguesia mais mesquinha não investe
apenas contra os direitos dos trabalhadores. Não satisfeita, ela
questiona também os programas sociais. E com raciocínio, em regra, que
faz corar quem ousa pensar em um país que dá voz a pensamentos cruéis e
obtusos. Ainda nesta semana, um eterno candidato da ultradireita e da
direita atacou, solertemente, o Bolsa Família. Com um raciocínio de dar
engulhos, nojo mesmo.
Com a arrogância natural
da nossa elite, que gosta de criticar tomando Macallan, cuja dose pode
custar mais do que o valor de um Bolsa Família, deu margem ao pensamento
que predomina na direita e criticou o programa e o governo Lula: “Você
não gera nenhum tipo de estímulo para as famílias que queiram sair do
Bolsa Família”.
Em regra, essa crítica rasa,
vulgar e banal não teria grande repercussão devido à fragilidade
intrínseca a ela. Mas, em um momento eleitoral, reverberou.
Claro
que não adianta mostrar aos ultradireitistas que um estudo da FGV
demonstrou que, em dez anos, mais de 60% dos beneficiários conseguiram
deixar o Bolsa Família. E um dado interessante: entre os jovens que eram
adolescentes quando recebiam o benefício, esse número passa de 70%. Ou
seja, os filhos do Bolsa Família, em grande parte, não continuam no
programa, como demonstrou a Ana Paula Renault ao responder à crítica.
Que, por sinal, definiu bem a manifestação do apresentador: “preconceito
fantasiado de opinião”. Ou demonstrar que, de janeiro a outubro do ano
passado, 2.069.776 famílias deixaram de depender do programa de
transferência de renda. Dessas, 1.318.214 saíram em razão do aumento dos
ganhos totais do domicílio.
A observação do
eterno candidato, maldosa e rasteira, ensejou respostas de políticos e
cientistas políticos que vieram com manifestações ácidas de vários
setores. Mas quem, para mim, liquidou o assunto foi um episódio
retratado pelo grande Alberto Villas no seu excelente jornal O SOL: “um
anônimo, comendo frango com macarrão no domingão, também gravou um vídeo
convidando o apresentador a ir para a sua comunidade viver com 600
reais por mês”. Não precisa procurar respostas mais preparadas e
fundamentadas; basta ter um pouco de vergonha na cara.
Lembrando-nos sempre de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco, o que desejo ainda não tem nome”.
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