NR-1 entra em vigor e amplia debate no transporte de cargas

 Atualização da norma amplia exigências sobre saúde mental no ambiente de trabalho e foi tema de debate em live promovida pelo SETCESP com especialistas do setor.

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entrou em vigor nesta terça-feira (26), deve ampliar a pressão sobre empresas de diferentes setores para adoção de medidas voltadas à saúde mental no ambiente de trabalho. No transporte rodoviário de cargas, especialistas avaliam que as mudanças tendem a impactar diretamente rotinas operacionais, gestão de equipes, liderança e organização das jornadas.

A nova versão da norma passou a exigir que fatores psicossociais sejam incorporados ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), ampliando a responsabilidade das empresas na identificação, prevenção e monitoramento de situações que possam afetar a saúde mental dos trabalhadores.

A discussão acontece em meio ao aumento dos afastamentos relacionados à saúde mental no Brasil. Em 2025, a Previdência Social concedeu 546.254 benefícios previdenciários por transtornos mentais e comportamentais, alta de 15,6% em relação a 2024, quando foram registrados 472.328 benefícios.

As maiores causas de afastamento do trabalho por questões psicossociais no ano passado foram os transtornos ansiosos, com 166.489 casos, e os episódios depressivos, com 126.608 registros. Também foram contabilizados 23.773 casos relacionados à reação ao estresse grave e transtornos de adaptação, segundo dados divulgados pela Agência Brasil.

Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), publicados pelo g1, apontam ainda que mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos no mundo em decorrência de problemas de saúde ligados a riscos psicossociais no trabalho, incluindo jornadas excessivas, assédio e insegurança no emprego.

O tema também foi debatido na live “Muito Além da Norma: NR-1 na prática”, promovida pelo SETCESP, que reuniu especialistas jurídicos, profissionais de saúde ocupacional e executivos do setor de logística e transporte.

TRANSPORTE RODOVIÁRIO ENTRA NO RADAR DA NOVA NR-1

Segundo os especialistas que participaram da live, fatores como excesso de jornada, pressão constante por prazos, sobrecarga operacional, assédio, comunicação agressiva, ausência de escuta e insegurança psicológica passam a integrar oficialmente o inventário de riscos ocupacionais das empresas.

No transporte rodoviário, o debate ganha ainda mais relevância diante das características operacionais do setor, marcado por longas jornadas, desgaste emocional, distância da família, pressão por entregas e ambientes de trabalho de alta exigência.

Durante o encontro, os participantes destacaram que a atualização da NR-1 representa uma mudança estrutural na forma como as empresas precisarão lidar com saúde ocupacional. A avaliação é de que não será mais suficiente manter apenas campanhas pontuais de bem-estar ou ações isoladas de conscientização.

Na avaliação dos especialistas, a fiscalização deve se concentrar não apenas na existência formal de documentos, mas na comprovação prática de que as medidas previstas estão sendo implementadas e acompanhadas pelas empresas.

Entre os principais pontos de atenção citados durante a live estão a ausência de riscos psicossociais no PGR, descrições genéricas, falta de critérios técnicos de avaliação, ausência de participação dos trabalhadores e planos de ação sem evidências concretas de implementação.

Os participantes também destacaram que o PGR passa a ser visto como um processo contínuo e dinâmico, exigindo identificação real dos riscos, implementação efetiva de medidas preventivas, monitoramento e revisão periódica.

EMPRESAS TERÃO DE REFORÇAR MONITORAMENTO E PREVENÇÃO

Segundo a advogada trabalhista Paula Ribeiro, da Weiss Advocacia, a nova exigência deve aumentar a necessidade de monitoramento e prevenção dentro das empresas, especialmente em relação a fatores organizacionais que possam impactar a saúde mental dos trabalhadores.

“Mais do que possuir campanhas institucionais, palestras isoladas ou implementar ações genéricas de bem-estar, será necessário, por parte das empresas, construir um verdadeiro dossiê capaz de demonstrar, de forma técnica e estruturada, que houve identificação dos riscos existentes, a adoção de medidas preventivas e o monitoramento da situação”, afirmou Paula.

De acordo com a especialista, situações como excesso de cobrança, jornadas excessivas, ambiente altamente conflituoso, sobrecarga operacional, falhas de liderança, pressão abusiva por metas e práticas de assédio podem entrar no radar das empresas dentro desse novo cenário regulatório.

A especialista destaca ainda que a documentação das medidas preventivas e corretivas adotadas pelas empresas deve ganhar importância em eventuais fiscalizações ou ações trabalhistas.

“A empresa deverá conseguir demonstrar quais providências foram adotadas para enfrentar o problema: treinamentos, revisão de metas, reorganização de equipes, melhoria de fluxos, mudanças de liderança, criação de canais de escuta, acompanhamento psicológico ou qualquer outra medida compatível com a situação identificada”, disse.

Segundo Paula Ribeiro, apesar da ampliação das exigências regulatórias, transtornos mentais possuem natureza multifatorial e nem todo quadro psicológico pode ser automaticamente atribuído ao ambiente corporativo.

“Questões familiares, financeiras, emocionais e sociais podem influenciar diretamente o quadro clínico do trabalhador sem, necessariamente, terem relação com o ambiente de trabalho”, explicou.

CULTURA ORGANIZACIONAL E LIDERANÇA GANHAM PESO NO SETOR

Durante a live promovida pelo SETCESP, especialistas e empresas do setor também defenderam que a atualização da NR-1 deve acelerar discussões sobre cultura organizacional, segurança psicológica e preparação de lideranças dentro das transportadoras.

Os participantes destacaram que questões como medo de punição, pressão constante, excesso de jornada, comunicação agressiva e ausência de escuta ativa podem ampliar riscos psicossociais dentro das operações.

Representantes de empresas relataram iniciativas como implementação de canais de escuta, treinamentos sobre assédio, revisão de processos internos, aplicação de avaliações psicossociais anônimas e mudanças na comunicação entre liderança e equipes operacionais.

A avaliação dos especialistas é de que o investimento em prevenção tende a gerar impactos operacionais positivos, reduzindo absenteísmo, presenteísmo, acidentes, perda de produtividade e rotatividade de profissionais.

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