“Preocupa-te o futuro, eu sei! Não há futuro.”
A Lisboa de hoje já não é a cidade lúdica e
acolhedora de antes. Sou de uma época em que, quando um português ia a
Paris, ele comentava, com certo orgulho: “vou à Europa”. Depois da
entrada na Comunidade Europeia, a cidade e o país se desenvolveram
muito. E, com o crescimento, vieram os problemas acumulados.
A
entrada em Portugal virou um martírio com filas intermináveis. E o mito
da segurança já caiu por terra faz bastante tempo. Com frequência,
ouvimos falar de assaltos, e a presteza da polícia deixa muito a
desejar. A par de tudo, cresce no país um determinado mau humor com os
imigrantes, principalmente a partir do crescimento da extrema direita,
como, aliás, ocorre em vários outros países. Mas a intolerância,
constato, não ocorre só entre os simpatizantes da extrema direita.
Observo, com tristeza, certa desumanização entre os defensores da
esquerda que perdem parte da natural empatia que deveria caracterizar
aqueles que têm uma formação mais humanista.
Estou
em Lisboa para fazer uma palestra na Faculdade de Direito da
Universidade de Lisboa e participar de dois debates literários. Em
poucos dias, ouvi relatos de assaltos e furtos. Não só na rua, mas
também dentro do conhecido hotel Tivoli, um cinco estrelas na Avenida da
Liberdade.
Com o objetivo único de alertar
amigos que ainda trazem com eles a impressão de segurança absoluta por
estarem na Europa, mandei mensagem para pessoas próximas. Contei, sem
dizer o nome, que um querido amigo foi assaltado em frente ao Tivoli, à
luz do dia, e teve seu relógio levado por dois homens em uma moto. Com a
agravante de certa violência física, deixando-o com uma ferida leve no
braço. Como nada entendo de relógio, falei que era um Patek Philippe,
que vale alguns milhares de dólares, para alertar contra a ostentação. A
reação de pessoas que eu gosto me fez refletir sobre esses tempos
estranhos.
Em resposta ao pequeno alerta,
pessoas de direita mandaram mensagens solidarizando-se com meu amigo,
perguntando sobre o machucado e, naturalmente, criticando a violência.
Para minha surpresa, os companheiros de esquerda enviaram manifestações
criticando o assaltado, comentando o preço do relógio e, por incrível
que possa parecer, com certo júbilo pelo assaltante ter levado um
relógio tão caro.
A responsabilidade imediata
pelo assalto passou a ser do meu amigo por ostentar um Patek Philippe em
um país onde a pobreza ainda impera e a desigualdade chama a atenção e
incomoda.
Andando pelas ruas em qualquer lugar
do mundo, neste momento tão constrangedor de guerras e de ódio, sentimos
um crescente desprezo pela solidariedade. É comum o não se preocupar
com a dor alheia. Se esse desprezo sempre foi uma marca da direita
individualista e voltada só para sua mesquinharia, o fato de estar
transbordando para todos deixa o mundo não só mais inseguro, mas também
sem esperança. E a esperança era o que nos sustentava e nos alimentava.
Remeto-me
a Galeano, quando escreveu sobre a utopia: “A utopia é como o
horizonte, você anda dois passos e o horizonte se afasta dois passos,
você anda dez passos e o horizonte se afasta dez passos. Então para que
serve a utopia? Serve para caminhar
“A utopia está lá no horizonte.
Se me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançá-lo-ei.
Para que serve a utopia?
Se me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançá-lo-ei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para eu não deixar de caminhar.”
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