
Em março de 2014, a Operação Lava Jato revelou um amplo esquema de corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo empreiteiras, políticos e agentes públicos. As investigações apontaram a existência de contratos fraudados e pagamentos de propina.
Na época, o caso foi considerado um dos maiores escândalos da história do país. Hoje, porém, aquele modelo pode parecer menos sofisticado diante do sistema que se consolidou em torno das emendas parlamentares cuja autoria, destinação e aplicação vêm sendo questionadas.
O Orçamento Geral da União prevê cerca de R$ 61 bilhões em emendas para 2026. O volume transformou o mecanismo em um dos principais canais de distribuição de recursos públicos e também em alvo de investigações sobre possíveis desvios e repasses de retorno a agentes políticos.
A mais recente apuração da Polícia Federal aponta que partidos e pessoas sem mandato eletivo teriam exercido influência sobre a destinação de milhões de reais.
Segundo a PF, o ex-deputado Eduardo Cunha (MDB) teria controlado 21 emendas parlamentares, que resultaram no repasse de R$ 6,15 milhões a pequenos municípios de Minas Gerais.
Já Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do Partido Liberal, é investigado por supostamente controlar R$ 119,2 milhões em emendas distribuídas por diferentes regiões do país.
No âmbito da investigação, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio judicial de bens dos dois políticos.
Personagens conhecidos de outros escândalos
A presença de Cunha e Valdemar no caso chama atenção porque ambos já estiveram no centro de outros grandes escândalos de corrupção no país.
Eduardo Cunha foi um dos personagens mais emblemáticos da Lava Jato. Em 2017, ele foi condenado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. As investigações apontaram o recebimento de propinas relacionadas a contratos da Petrobras e a manutenção de recursos não declarados em contas na Suíça.
Em 2023, uma das condenações foi anulada pelo STF por uma questão relacionada à competência da Justiça responsável pelo processo. A decisão, no entanto, não apagou o histórico de investigações que marcou a trajetória política do ex-deputado.
Valdemar da Costa Neto, por sua vez, foi condenado no processo do Mensalão. Ele também apareceu entre os investigados da Lava Jato depois que delações de executivos da Odebrecht apontaram o suposto recebimento de vantagens indevidas relacionadas a contratos da Ferrovia Norte-Sul.
Agora, os dois voltam ao radar da Polícia Federal por suspeitas relacionadas ao controle e à destinação de emendas parlamentares.
Uma mudança no modelo investigado
A comparação entre os escândalos revela uma possível mudança no modo de operação.
Na Lava Jato, as investigações apontaram que contratos públicos superfaturados eram usados para financiar o pagamento de propinas. Nas planilhas da Odebrecht, Valdemar da Costa Neto aparecia associado ao codinome “Polones”, enquanto Eduardo Cunha era identificado como “Caranguejo”.
No caso das emendas parlamentares, a suspeita é de que o mecanismo funcione de maneira diferente: os recursos são direcionados diretamente a municípios e órgãos públicos por meio do Orçamento da União, muitas vezes com pouca transparência sobre quem definiu a destinação e quem exerceu influência sobre os repasses.
Segundo Flávio Dino, a falta de identificação clara dos responsáveis e de informações detalhadas sobre o caminho percorrido pelo dinheiro pode dificultar a fiscalização e o rastreamento dos recursos públicos.
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