Philip Morris reinventa o vício em um futuro "sem fumaça"

Redução de danos ou reinvenção do vício? (Cigarro eletrônico - Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)

Em meio a resultados bilionários e aprovações da FDA para produtos “de risco modificado”, gigante do tabaco celebra a transição para o cigarro sem fumaça e sachês de nicotina

Entrevista recente à CNBC Brasil sobre os resultados do segundo trimestre de 2026, o CEO da Philip Morris International (PMI) comemorou o desempenho orgânico sólido do primeiro semestre, a crescente participação dos produtos sem fumaça na receita (já em torno de 42%) e a postura “pragmática e baseada em evidências” da FDA americana.

Destacou especialmente a designação de “produto de risco modificado” concedida ao ZYN, o que permite comunicar aos consumidores que se trata de uma alternativa menos prejudicial que o cigarro tradicional. A visão de longo prazo, segundo o executivo, é reduzir drasticamente o tabagismo combustível nos próximos 5 a 10 anos.

O discurso é impecável sob a ótica do mercado. A empresa investiu mais de US$ 16 bilhões desde 2008 para desenvolver, comprovar cientificamente e comercializar alternativas sem combustão. IQOS aquece o tabaco sem queimá-lo, gerando aerossol com níveis significativamente menores de substâncias tóxicas. O ZYN consiste em pequenos sachês orais de nicotina (sem folha de tabaco) colocados entre a gengiva e o lábio, sem fumaça, cinza ou vapor.

O VEEV vaporiza líquidos com nicotina. Em 30 de junho de 2026, a FDA autorizou 20 variantes do ZYN a serem comercializadas com a alegação de que “usar ZYN em vez de cigarros coloca você em menor risco de câncer de boca, doença cardíaca, câncer de pulmão, derrame, enfisema e bronquite crônica” — a primeira autorização desse tipo para sachês de nicotina. Fonte: FDA – Autorização de produto de risco modificado para ZYN.

Esses produtos, classificados como “smoke-free” ou livres de combustão, eliminam o processo de queima que ocorre no cigarro tradicional (temperaturas de 800–900°C) e que libera milhares de compostos nocivos. A lógica da “redução de danos” é clara: para o fumante adulto que não consegue ou não quer parar, uma alternativa com menos substâncias tóxicas seria preferível. A PMI afirma que mais de 43 milhões de adultos já usam seus produtos sem fumaça em mais de 100 mercados, e que o objetivo final é tornar os cigarros obsoletos. Fonte: Philip Morris International – Progresso rumo a um futuro sem fumaça.

A incoerência, no entanto, gritante. A mesma indústria que por décadas potencializou o câncer de pulmão, doenças cardiovasculares e outras enfermidades associadas ao tabagismo — contribuindo para milhões de mortes anuais — agora mobiliza ciência, reguladores e bilhões de dólares para reinventar a entrega de nicotina. Não para eliminar a dependência, mas para torná-la mais aceitável, mais limpa, mais “moderna” e, sobretudo, mais lucrativa e sustentável no longo prazo.

O esforço monumental dedicado a aperfeiçoar novas formas de consumir uma substância altamente viciante contrasta com a ausência de esforço equivalente, por parte dessa mesma empresa, em pesquisar a cura do câncer (doença que ela própria ajudou a potencializar em escala global) ou em desenvolver alimentos livres de venenos e aditivos que realmente aprimorem a capacidade cognitiva humana.

Enquanto isso, o Reino Unido avança em direção oposta. Segundo reportagem da BBC News, a nova legislação (Tobacco and Vapes Act 2026) cria uma “geração livre de fumo”: a partir de 1º de janeiro de 2027, será proibido vender tabaco a qualquer pessoa nascida em ou após 1º de janeiro de 2009 — um banimento vitalício. Lojistas enfrentarão regras de fiscalização semelhantes às da venda de álcool, com verificação de identidade.

A lei também restringe marketing, sabores e embalagens de cigarros eletrônicos, proíbe o uso de vapes em carros com crianças, playgrounds e arredores de escolas (embora permita fora de hospitais para ajudar fumantes adultos a parar). Iniciada no governo de Rishi Sunak e concluída pelo Partido Trabalhista, a medida coloca o país como pioneiro global nessa política de saúde pública. Fontes: BBC News – Smoking ban for people born after 2008 in the UK agreed e GOV.UK – Tobacco and Vapes Bill becomes law.

Enquanto a PMI celebra a “transição livre de fumaça” e o olhar pragmático da FDA, a humanidade continua enfrentando epidemias de câncer, poluição alimentar e déficits cognitivos crescentes. A ciência que comprova a redução de certos riscos no ZYN e no IQOS é a mesma que poderia, com recursos e vontade equivalentes, ser direcionada a soluções que realmente elevem a qualidade e a duração da vida humana — e não apenas a refinarem as maneiras de encurtá-la de forma mais elegante.

O cigarro sem fumaça e os sachês de nicotina representam, sim, um avanço técnico em relação à combustão. Mas o verdadeiro salto civilizatório seria outro: parar de reinventar a dependência e começar a investir, com a mesma intensidade, na cura e no potencial humano.

Emerson Tormann

Técnico Industrial em Elétrica e Eletrônica, especializado em Tecnologia da Informação e Comunicação. Atualmente, é Editor-Chefe na Atualidade Política Comunicação e Marketing Digital Ltda. Possui ampla experiência como jornalista e diagramador, com registro profissional DRT 10580/DF. https://etormann.tk | https://atualidadepolitica.com.br

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