Ex-prefeita transformou a política cultural de Fortaleza ao ampliar orçamento, criar mecanismos de financiamento, fortalecer equipamentos e aproximar artistas da administração pública. Em 2026, candidata ao Senado pela Rede Sustentabilidade, Luizianne busca apresentar essa trajetória como uma das principais credenciais de sua candidatura e se coloca novamente ao lado da produção cultural cearense
Poucas áreas ajudam a explicar a trajetória política de Luizianne Lins em Fortaleza quanto a cultura. Antes mesmo de disputar novamente um cargo majoritário em 2026, a ex-prefeita construiu, durante seus dois mandatos à frente da capital cearense, uma experiência de política cultural que modificou a relação entre artistas, produtores, movimentos culturais e poder público. A partir de 2005, a cultura deixou de ocupar apenas o espaço tradicional de eventos e programação e passou a ser tratada como política pública, com orçamento, mecanismos de financiamento, equipamentos, formação, participação social e planejamento.
A transformação não foi obra isolada de uma governante. Estudos acadêmicos mostram que a experiência fortalezense dialogou com uma mudança que ocorria no Brasil durante os governos Lula, especialmente a partir das políticas implementadas pelo Ministério da Cultura sob a gestão de Gilberto Gil. Em Fortaleza, porém, essa agenda ganhou características próprias e foi incorporada à estrutura administrativa do município, criando uma experiência que atravessaria diferentes governos.
A cultura entra no orçamento
O primeiro sinal dessa mudança apareceu no orçamento. Levantamento realizado a partir de documentos da Prefeitura e analisado em pesquisas sobre a política cultural de Fortaleza mostra que a participação da cultura na Lei Orçamentária Anual tinha média de aproximadamente 0,45% entre 2002 e 2005. Em 2006, o percentual chegou a 1,11% e, entre 2006 e 2010, ficou em torno de 1,5%, alcançando 2,05% em 2009. O aumento de recursos permitiu que a Prefeitura ampliasse o número de projetos financiados, criasse equipamentos e estruturasse programas de formação e circulação artística.
A decisão de trabalhar com a referência de 1% do orçamento para a cultura também se inseria no debate nacional sobre a necessidade de ampliar o investimento público no setor. O resultado foi uma mudança importante na posição da cultura dentro da administração municipal. Em vez de depender de recursos ocasionais, a área passou a ter uma presença mais definida no planejamento e no orçamento da cidade.
A mudança mais significativa, entretanto, estava na forma de distribuir esses recursos. Os editais públicos ganharam espaço como instrumento para selecionar projetos de diferentes linguagens artísticas. Teatro, música, dança, literatura, fotografia, artes visuais, audiovisual e cultura popular passaram a disputar financiamento dentro de regras previamente estabelecidas. Em 2006, uma série de editais contemplou 90 projetos culturais.
A lógica não era completamente inédita, já que o próprio Ministério da Cultura vinha estimulando nacionalmente esse modelo, mas a incorporação dos editais à política municipal representou uma alteração importante na relação entre poder público e classe artística. Em vez de depender exclusivamente de contratação direta ou de relações pessoais com gestores, o artista passou a ter a possibilidade de apresentar um projeto e disputar recursos públicos por meio de seleção.
Foi também nesse processo que a cultura ganhou uma estrutura administrativa própria. Em 2007, a Prefeitura criou a Secretaria de Cultura de Fortaleza, a Secultfor, separando a área de uma estrutura que anteriormente reunia cultura, esporte e turismo. A nova secretaria passou a conduzir uma política que incluía editais, equipamentos, patrimônio, formação, festivais e participação social. A administração também avançou na construção do Sistema Municipal de Cultura, nas conferências municipais e na criação de mecanismos de participação.
A II Conferência Municipal de Cultura, realizada em 2007, estabeleceu compromissos relacionados à institucionalização da política cultural, incluindo a criação de conselhos e instrumentos de planejamento. Em 2010, foi criado o Conselho Municipal de Política Cultural. A cultura, dessa maneira, passou a ter não apenas orçamento, mas uma arquitetura institucional dentro da Prefeitura.
Vila das Artes, CUCA e uma nova cidade
Entre os equipamentos que simbolizam essa transformação está a Vila das Artes. Inaugurado em 2006, o espaço nasceu de uma combinação entre a política da Prefeitura e a mobilização de setores da própria classe artística. Pesquisas acadêmicas mostram que a Vila não pode ser compreendida como uma iniciativa criada exclusivamente de cima para baixo. Artistas e agentes culturais participaram da construção da proposta e pressionaram o poder público para que a cidade tivesse um equipamento dedicado à formação e à produção artística.
O projeto acabou reunindo atividades relacionadas ao audiovisual, dança, artes visuais e outras áreas. Uma pesquisa de mestrado da Universidade Federal do Ceará analisou justamente o processo de implementação da formação em dança da Vila das Artes e sua relação com as políticas culturais desenvolvidas durante a primeira gestão de Luizianne.
A Vila das Artes se tornou, ao longo dos anos, uma das principais referências da formação artística pública de Fortaleza. A importância do equipamento está menos na sua dimensão física do que na concepção de política cultural que representa. Em vez de limitar a ação municipal ao financiamento de apresentações, a Prefeitura passou a investir também na formação de quem produziria cultura. Era uma mudança de perspectiva: o poder público não deveria apenas contratar o espetáculo pronto, mas contribuir para formar artistas, técnicos e produtores capazes de construir a própria cena cultural da cidade.
A mesma lógica apareceu nos Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte, os CUCAs. O primeiro foi inaugurado na Barra do Ceará, em 2009, levando para uma área popular de Fortaleza uma estrutura que reunia cultura, esporte, ciência, tecnologia, formação profissional e atividades voltadas para a juventude. A localização tinha importância política e social. Durante décadas, grande parte dos equipamentos culturais de maior visibilidade da cidade esteve concentrada em áreas mais centrais ou economicamente privilegiadas. Os CUCAs procuravam inverter essa lógica e levar formação e acesso cultural para territórios periféricos.
Segundo dados divulgados pela própria administração, os investimentos nos três equipamentos previstos para a juventude chegaram a aproximadamente R$ 17,6 milhões entre 2007 e 2011. O projeto tinha uma concepção que ultrapassava a oferta de atividades culturais: buscava criar espaços públicos de convivência, formação e oportunidades para jovens.
A cultura também chegou às manifestações tradicionais da cidade. O Carnaval e o Pré-Carnaval receberam apoio mais sistemático, com financiamento por editais e suporte logístico às agremiações. Em 2012, último ano da administração Luizianne, o Pré-Carnaval de Fortaleza reunia 114 agremiações, das quais 60 receberam apoio financeiro por meio de edital. O restante recebeu apoio logístico.
Na música, a criação da Mostra de Música de Fortaleza Petrúcio Maia também representou essa política de descentralização. A primeira edição, em 2006, selecionou 90 grupos musicais e levou apresentações para as seis Regionais de Fortaleza. Teatro, dança, artes visuais, audiovisual e literatura seguiram caminho semelhante, com festivais, exposições, oficinas e editais que ampliaram a participação de artistas independentes e grupos culturais.
Uma relação construída com os artistas
É nesse conjunto de ações que se encontra o argumento para a imagem de Luizianne como uma das prefeitas que mais aproximaram a política institucional da produção cultural em Fortaleza. A expressão "candidata dos artistas", utilizada atualmente por apoiadores de sua candidatura ao Senado, não significa que toda a classe artística cearense esteja politicamente alinhada a ela. O setor cultural é plural e reúne diferentes posições ideológicas e partidárias.
A identificação, entretanto, possui uma base histórica concreta: durante seus mandatos, setores da cultura passaram a contar com mais mecanismos públicos de financiamento, formação, participação e circulação. Essa relação também precisa ser entendida como uma construção coletiva. A política cultural daquele período foi resultado da atuação de gestores públicos, servidores, artistas, produtores, pesquisadores e movimentos culturais que já reivindicavam mudanças.
Os estudos sobre a Vila das Artes e os editais mostram que a classe artística teve papel importante na formulação das demandas. O papel da administração Luizianne foi incorporar parte dessas reivindicações à estrutura do governo, ampliar os recursos e transformá-las em programas permanentes. É justamente essa combinação que diferencia a experiência de Fortaleza de uma simples política de eventos.
Para muitos trabalhadores da cultura, a diferença estava na mudança de relação com o poder público. O artista deixava de ser apenas alguém contratado para uma programação da Prefeitura e passava a ser reconhecido também como proponente, produtor e agente de política cultural. O edital tornou-se uma ferramenta de acesso aos recursos públicos, permitindo que projetos fossem apresentados e avaliados dentro de critérios previamente definidos.
Essa transformação ajuda a compreender por que a relação de Luizianne com a cultura permanece politicamente relevante quase duas décadas depois do início de sua primeira gestão. Não se trata apenas da lembrança de shows ou festivais realizados durante seu governo. Trata-se de equipamentos e mecanismos que passaram a fazer parte da estrutura da cidade.
Um legado que atravessou governos
O melhor teste para uma política pública é aquilo que permanece depois que o governante deixa o cargo. A Vila das Artes continua funcionando como equipamento público de formação artística; os CUCAs permanecem como parte da política municipal de juventude; a Secultfor continua responsável pela política cultural; os editais seguem sendo utilizados para financiar projetos; e o Sistema Municipal de Cultura continua articulando mecanismos de participação e planejamento.
Isso não significa que as políticas atuais sejam exclusivamente de Luizianne. Diferentes administrações deram continuidade, modificaram ou ampliaram programas ao longo dos anos. A política cultural de Fortaleza de 2026 é resultado de quase duas décadas de transformações e também incorpora instrumentos nacionais que sequer existiam durante a gestão da ex-prefeita.
Mas existe um dado histórico que permanece: uma parte importante da estrutura sobre a qual a política cultural de Fortaleza trabalha hoje foi criada ou consolidada durante os oito anos de Luizianne na Prefeitura.
Em 2026, essa herança ganha uma dimensão ainda maior. O Brasil possui instrumentos nacionais como a Política Nacional Aldir Blanc, criada posteriormente, além de novas regras para o financiamento e o fomento cultural. Fortaleza continua utilizando editais e programas de formação e circulação dentro dessa estrutura mais ampla. A experiência municipal iniciada nos anos 2000, portanto, encontra um cenário nacional muito diferente daquele de sua origem.
A cultura também passou a ser compreendida cada vez mais como trabalho. Ao financiar projetos, criar equipamentos e ampliar a programação, a administração movimentava uma cadeia formada por artistas, técnicos, produtores, cenógrafos, iluminadores, figurinistas, fotógrafos, músicos e profissionais do audiovisual. A política cultural não dizia respeito apenas ao acesso da população às artes, mas também às condições de produção de quem trabalhava no setor.
Essa dimensão ajuda a explicar por que a cultura se tornou uma das principais áreas de identificação da trajetória política de Luizianne. Para além da programação cultural, havia uma tentativa de construir um ecossistema formado por formação, financiamento, produção, circulação e acesso.
Da Prefeitura ao Senado
É esse passado que Luizianne leva para a disputa eleitoral de 2026. Depois de uma longa trajetória no Partido dos Trabalhadores, a ex-prefeita disputa o Senado pela Rede Sustentabilidade e procura apresentar sua experiência administrativa, sua atuação política e sua relação com movimentos sociais como credenciais para uma nova etapa.
A disputa acontece em um cenário competitivo. Pesquisa Atlas/Focus divulgada em agosto colocou Luizianne com 24% das intenções de voto para o Senado, tecnicamente empatada com Cid Gomes, que apareceu com 23,7%, e Capitão Wagner, com 21,7%. O levantamento ouviu 1.774 eleitores entre 6 e 11 de agosto e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número CE-02777/2026.
Nesse cenário, a cultura aparece como uma das áreas em que Luizianne possui uma história administrativa concreta para apresentar ao eleitor. A candidatura pode transformar a experiência de Fortaleza em uma agenda nacional voltada ao financiamento cultural, aos direitos dos trabalhadores da cultura, à formação, à circulação artística, ao audiovisual, ao patrimônio e à descentralização dos recursos.
A transição, entretanto, é significativa. Na Prefeitura, Luizianne tinha sob sua responsabilidade uma cidade. No Senado, a atuação seria nacional e envolveria legislação, orçamento federal e políticas públicas para estados e municípios. A experiência municipal pode funcionar como credencial, mas precisará ser transformada em propostas capazes de responder aos desafios contemporâneos da cultura brasileira.
Para os artistas que se identificam com sua trajetória, porém, existe um argumento que não precisa ser criado para a eleição: Luizianne já teve a oportunidade de colocar a cultura dentro de uma administração municipal e deixar uma estrutura que atravessou governos. A expressão "candidata dos artistas" nasce justamente dessa memória, ainda que não represente toda a diversidade política da classe artística cearense.
A história da cultura durante seus mandatos também revela uma dimensão maior de seu projeto político. Cultura, juventude, participação popular, esporte, educação e ocupação dos espaços públicos eram tratados como áreas conectadas. Os CUCAs representam essa concepção de maneira clara, assim como as conferências e conselhos municipais. A ideia era ampliar a presença das políticas públicas em territórios onde o acesso a equipamentos e oportunidades era historicamente menor.
Por isso, a transformação promovida entre 2005 e 2012 pode ser entendida como uma revolução administrativa na política cultural de Fortaleza, desde que o termo seja utilizado para definir uma mudança de estrutura, e não uma criação individual. Luizianne não inventou os editais, não criou sozinha a cena artística da cidade e não foi responsável isoladamente pelas transformações que ocorreram no setor. O que sua administração fez foi reunir tendências nacionais, reivindicações da classe artística e decisões políticas locais em uma estrutura municipal mais ampla, dando orçamento, secretaria, equipamentos e instrumentos de participação a uma área que possuía uma organização muito mais fragmentada.
Essa talvez seja a principal razão pela qual o nome de Luizianne continua associado à cultura. Equipamentos podem ser reformados, programas podem mudar e governos podem estabelecer novas prioridades. O que permanece é uma estrutura institucional e uma memória entre aqueles que participaram daquele processo.
Em 2026, essa memória volta às ruas em uma campanha para o Senado. Luizianne tenta transformar a experiência da "Fortaleza Bela" em uma agenda para o Ceará, levando consigo uma das marcas mais reconhecidas de seus dois mandatos: a defesa de que cultura não deve ser apenas entretenimento ou programação oficial, mas uma política pública permanente, capaz de gerar formação, trabalho, identidade, participação e cidadania.
A relação com os artistas, portanto, não começou agora. Foi construída ao longo de uma trajetória política e administrativa que teve seu momento mais concreto na Prefeitura de Fortaleza. Dos editais à Vila das Artes, dos CUCAs ao Carnaval, da Mostra Petrúcio Maia aos conselhos e conferências, a cultura ganhou espaço no orçamento e na estrutura do município.
É esse legado que sustenta a imagem de Luizianne como uma candidatura próxima da classe artística cearense. Não porque represente sozinha todos os artistas, mas porque sua passagem pela Prefeitura deixou uma marca institucional que pode ser observada em equipamentos, mecanismos de financiamento, programas de formação e na própria forma como Fortaleza passou a organizar sua política cultural.
Agora, quase duas décadas depois do início daquela experiência, o palco é outro. A disputa é pelo Senado, e a escala é nacional. Mas a pauta que Luizianne leva consigo continua diretamente ligada àquela transformação iniciada em Fortaleza: a defesa de que cultura também é direito, trabalho, identidade e política pública.
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