Em duelo pela direita, Caiado eleva o tom contra Flávio Bolsonaro para tentar enfrentar Lula

Pré-candidato do PSD busca superar o senador no primeiro turno e se apresentar como a alternativa mais competitiva ao presidente na etapa decisiva

MUDANÇA - O ex-governador de Goiás, na convenção do PSD: do palanque bolsonarista a rival na disputa presidencial

A disputa pela liderança da direita brasileira ganhou um novo capítulo nas últimas semanas. Ronaldo Caiado (PSD), terceiro colocado na corrida presidencial, intensificou as críticas a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para representar o grupo político nas eleições de 2026.

A mudança de postura ocorre em um momento decisivo para Caiado. Depois de tentar se aproximar do eleitorado bolsonarista, o ex-governador de Goiás passou a adotar um discurso mais confrontador. A estratégia é disputar diretamente os votos da direita e se apresentar como o candidato mais competitivo para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno.

De aliado a rival

Em março, ao subir em um trio elétrico na Avenida Paulista, Caiado discursou ao lado de Flávio e de outras lideranças conservadoras. Na ocasião, prometeu conceder “anistia plena, geral e irrestrita” aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.

A postura refletia a tentativa de se apresentar como uma alternativa capaz de herdar parte do eleitorado de Jair Bolsonaro, que está inelegível, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado.

Com a oficialização da candidatura pelo PSD e a consolidação de Flávio como o nome escolhido pelo pai, no entanto, Caiado mudou o tom. O objetivo passou a ser conquistar espaço entre os eleitores de direita que, segundo pesquisas recentes, ainda veem o senador do PL como o principal adversário de Lula.

Críticas mais duras

As declarações de Caiado contra Flávio se intensificaram em julho. Ao comentar uma carta divulgada pelo senador, na qual Jair Bolsonaro pedia a união da direita em torno do filho, o pré-candidato do PSD afirmou:

“Liderança você não herda, liderança você cria.”

Caiado também criticou a reunião de Flávio com embaixadores estrangeiros, realizada em Brasília, na qual o senador levantou questionamentos sobre as urnas eletrônicas. Para o ex-governador, o encontro deveria ter sido utilizado para defender os interesses econômicos do Brasil.

“Quarenta e dois embaixadores numa sala: dava para vender soja. Dava para abrir mercado para a indústria. Dava para atrair investimento. Escolheram falar de urna eletrônica!”, declarou.

Na convenção que oficializou sua candidatura, em 26 de julho, Caiado voltou a atacar o adversário. Ao fazer referência às investigações envolvendo Flávio, disse que o país não poderia ter um candidato “Kinder Ovo, uma surpresinha todo dia”.

O marqueteiro da campanha, Paulo Vasconcelos, afirma que a mudança não representa uma alteração no planejamento eleitoral, mas uma reação ao comportamento do adversário.

“Quem mudou foi Flávio. Caiado foi obrigado, em função das revelações, a adotar outra postura. Não houve mudança estratégica. O que existe é uma reação aos erros do adversário”, afirmou.

Caiado aposta na competitividade

A nova estratégia está diretamente relacionada aos números das pesquisas. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 27 de julho, Lula aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno, seguido por Flávio, com 33%, e Caiado, com 6%.

O desempenho mostra o tamanho do desafio do candidato do PSD. Para chegar ao segundo turno, ele precisa superar Flávio e convencer o eleitorado conservador de que teria mais condições de derrotar Lula.

Nos cenários de segundo turno, contudo, Caiado aparece numericamente mais próximo do presidente. A pesquisa aponta Lula com 45% e Caiado com 43%. Em uma disputa contra Flávio, Lula teria 47%, ante 43% do senador. Já contra Romeu Zema, do Novo, o presidente registraria 46%, contra 42% do governador mineiro.

A diferença de apenas dois pontos no cenário com Caiado é explorada pela campanha como um indicativo de maior competitividade.

Trajetória marcada por disputas

A candidatura de Caiado também enfrenta dificuldades no campo partidário. Depois de mais de três décadas em legendas que passaram por diferentes nomes — PFL, DEM e União Brasil —, ele deixou o União Brasil após o partido decidir não lançar candidato próprio à Presidência.

Caiado foi acolhido pelo PSD, mas precisou disputar a indicação interna com os governadores Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. Os dois foram os únicos, entre os seis governadores do partido, a não participar da convenção que confirmou sua candidatura.

O ex-governador também tem uma longa trajetória de participação em disputas nacionais. Em 1989, quando liderava um setor do movimento ruralista contrário a Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, concorreu à Presidência e terminou em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Disputa entre a direita tradicional e o bolsonarismo

O confronto entre Caiado e Flávio representa uma disputa mais ampla entre a direita tradicional e o bolsonarismo. Enquanto o senador conta com o apoio direto de Jair Bolsonaro e com a força política do sobrenome, Caiado tenta se apresentar como um nome de experiência administrativa e maior capacidade de diálogo.

Para Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, um eventual enfraquecimento de Flávio poderia provocar uma reacomodação do eleitorado de direita. Segundo ele, como o principal objetivo desse grupo é derrotar o lulismo, os eleitores poderiam migrar para um candidato considerado mais viável no segundo turno.

Até o momento, porém, Flávio demonstra resistência diante das crises e continua à frente de Caiado nas intenções de voto do primeiro turno.

Os trunfos de Caiado

Além do desempenho nos cenários de segundo turno, Caiado reúne outros elementos que podem favorecer sua campanha:

  • Aparece como uma das principais opções de voto entre eleitores que ainda não definiram o candidato;
  • Terá direito ao horário eleitoral gratuito na televisão;
  • Busca atrair lideranças estaduais que desejam evitar uma disputa excessivamente polarizada;
  • Tenta se aproximar de nomes como ACM Neto, na Bahia, e Ciro Gomes, no Ceará;
  • Defende uma imagem associada à experiência administrativa e à gestão pública.

A campanha oficial começa em 16 de agosto. A partir daí, Caiado terá de transformar o discurso de competitividade em crescimento efetivo nas pesquisas. O principal desafio será convencer o eleitorado de direita de que, além de representar uma alternativa ao bolsonarismo, ele também tem condições reais de derrotar Lula.

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