Eu me lembro de que, aos 14 anos, pouco antes de sair de casa para morar em Curitiba (eu vivia em Maringá, PR), decidi fazer um teste de Quociente de Inteligência (QI). Fui bem! Consegui 106 pontos! Esse escore indicava inteligência acima da média para minha idade e instrução. O QI era muito utilizado como referência não apenas para obtenção de um bom emprego, mas também para identificação da vocação das pessoas. Meu sonho era ser engenheiro civil. O curso era considerado difícil. Por isso, quem o pretendesse tinha de ter um bom QI.
Durante boa parte do século XX (eu nasci em 1951), o Quociente de Inteligência era considerado a medida suprema da capacidade humana. Ele definia quem era visto como capaz para liderar, inovar ou ocupar posições de destaque. Todavia, a partir da década de 1990, foi esquecido, dando lugar ao Quociente Emocional (QE). Este revelava que não era suficiente raciocinar de forma lógica; era também necessário compreender e gerir emoções próprias e alheias. Essa mudança abriu espaço para uma visão mais ampla do que era a inteligência.
Hoje, quando já avançamos mais de um quarto do século XXI, a neurociência aponta uma terceira dimensão da inteligência: o Quociente Espiritual (Spiritual) (QS). Esse novo indicador revela, em tese, quem é capaz de liderar plenamente, com foco no propósito. Contudo, segundo a filósofa e física Dana Zohar, essa “terceira via” não substitui nem elimina o QI ou o QE, mas os integra e os transcende. O QS oferece uma lente que conecta razão e emoção ao sentido mais profundo da existência; nele, a palavra espiritual nada tem a ver com religião.
No entanto, pesquisas científicas já identificaram o chamado ponto de Deus nos lobos temporais do cérebro, associado à experiência espiritual e a valores pessoais. Esse fato sustenta que a busca por propósito além de filosófica é também biológica. No mundo corporativo, o QS tem sido visto como diferencial competitivo. Pessoas com mais valores e propósitos tendem a produzir e criar mais, sem estresse. Elas veem o trabalho como missão, não como obrigação. Por isso são capazes de inspirar equipes e criar ambientes saudáveis, inovadores e sustentáveis.
Dana Zohar mapeia algumas qualidades do líder espiritualmente inteligente. Dentre elas: profundo autoconhecimento, capacidade de transformar adversidade em oportunidade, visão holística (global), reconhecimento da diversidade e independência de pensamento. Além disso, ele demonstra espontaneidade, equilíbrio emocional, sensibilidade e compaixão. Isso o qualifica como verdadeiro agente de transformação. Tais qualidades não apenas fortalecem a liderança; elas criam culturas organizacionais muita mais humanizadas e inclusivas.
Sendo assim, a transição do QI para o QS representa a evolução da própria noção de inteligência e liderança. O QI nos ensinou a pensar; o QE, a sentir. O QS nos ensina a ser e a agir com propósito. Em tempo de crises globais, desigualdades e desafios ambientais, líderes espiritualmente inteligentes são, em tese, os mais capazes para levar as organizações e as comunidades a um futuro sustentável, inclusivo e significativo. O despertar da liderança de propósito é, portanto, não apenas uma tendência, mas uma necessidade urgente deste século.
João Teodoro da Silva
Presidente – Sistema Cofeci-Creci e Neurocientista Comportamental
.gif)