Sarampo volta a ameaçar o Brasil e reacende debate sobre o legado antivacina do bolsonarismo

São Paulo, governado por Tarcísio de Freitas, aliado de Jair Bolsonaro, concentra o surto ativo de sarampo em 2026; Tocantins, que teve outro surto durante a gestão de Wanderlei Barbosa, registrou 25 casos em 2025, enquanto Eduardo Bolsonaro volta a defender a não vacinação infantil nos Estados Unidos

O sarampo, doença que o Brasil havia conseguido eliminar como transmissão endêmica, voltou a ocupar espaço no noticiário brasileiro. O fenômeno acontece em paralelo à permanência, no ambiente político, de discursos que questionam vacinas e políticas de imunização, especialmente entre Jair Bolsonaro, seus filhos e parte de seus aliados.

A situação exige uma análise que vá além da contagem de casos. Quando a cobertura vacinal cai, doenças controladas por décadas pelo Programa Nacional de Imunizações voltam a encontrar espaço para circular. E quando autoridades políticas questionam vacinas ou transformam a imunização em disputa ideológica, o risco deixa de ser apenas individual e passa a ser coletivo.

Mas existe uma diferença fundamental entre associação e causalidade: os dados disponíveis não permitem afirmar que determinado governador provocou um surto por ser bolsonarista. Permitem, entretanto, examinar o desempenho das políticas de vacinação nos estados, o comportamento de seus governos e o ambiente político criado por lideranças que fizeram da desconfiança em relação às vacinas uma bandeira.

São Paulo: 23 casos e um governo alinhado a Bolsonaro
O caso mais emblemático de 2026 está em São Paulo. O estado chegou a 23 casos confirmados de sarampo em agosto, segundo informações da Secretaria Estadual da Saúde repercutidas pela imprensa. Parte dos pacientes não tinha histórico de vacinação ou estava com o esquema incompleto. O governo paulista passou a ampliar a distribuição de doses e as ações de vacinação diante do avanço dos casos.
São Paulo é governado por Tarcísio de Freitas, do Republicanos, um dos principais aliados políticos de Jair Bolsonaro. Tarcísio declarou apoio público à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e afirmou sua lealdade política ao ex-presidente.
A associação política, portanto, é objetiva. O estado que hoje concentra o surto de sarampo mais importante do país é governado por um dos principais representantes do campo bolsonarista.
Isso, contudo, não significa que o bolsonarismo tenha causado os casos.
Há outro dado importante: o próprio governo paulista informa que a cobertura da primeira dose da tríplice viral aumentou de 78,42% em 2022 para 98,65% em 2024. O Ministério da Saúde também registra que a cobertura vacinal paulista vinha melhorando.

O problema aparece quando se olha para a proteção mais recente e para determinados municípios. Em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, as coberturas registradas em 2025 ficaram abaixo da meta de 95% para a primeira e a segunda doses em alguns indicadores. O Ministério da Saúde passou a recomendar uma dose adicional para crianças pequenas justamente diante do surto.
Ou seja: não é correto dizer que Tarcísio criou o surto. É correto dizer que o estado sob sua administração enfrenta uma crise de proteção imunológica que exige resposta governamental imediata.

Tocantins: 25 casos em uma cadeia de transmissão
O segundo exemplo relevante está no Tocantins. Em 2025, o estado registrou 25 casos de sarampo, segundo o Ministério da Saúde. A cadeia começou com a introdução do vírus por uma família procedente da Bolívia, onde havia circulação da doença. O episódio se tornou particularmente preocupante porque 22 dos 25 infectados pertenciam a uma comunidade tradicional na qual não havia registro de vacinação contra o sarampo.
O governo do Tocantins era comandado por Wanderlei Barbosa, do Republicanos.
Mais uma vez, é necessário separar os fatos da interpretação política. A origem do surto foi a introdução do vírus vindo da Bolívia, e não uma decisão do governador. O que a epidemia revelou foi a existência de uma comunidade extremamente vulnerável por falta de imunização.
O Ministério da Saúde mobilizou equipes, realizou bloqueios vacinais e intensificou a vacinação na região.
A conclusão sanitária é cristalina: sem vacinação, a entrada de um vírus altamente contagioso pode transformar um caso importado em uma cadeia de transmissão.

O Brasil já tinha eliminado o sarampo
O tamanho do retrocesso fica mais evidente quando se olha para a história.
Em 2016, o Brasil recebeu da Organização Pan-Americana da Saúde a certificação de eliminação do sarampo. Em 2016 e 2017 não houve casos confirmados no território nacional.
A partir de 2018, porém, o vírus voltou a circular. O próprio Ministério da Saúde relaciona o retorno à combinação de fluxo migratório e redução das coberturas vacinais.
Entre 2018 e 2022, o país registrou mais de 39 mil casos de sarampo. Em 2019, o Brasil perdeu a certificação de eliminação depois de mais de 12 meses de transmissão.
Depois de uma nova melhora, o país voltou a receber a certificação de eliminação em novembro de 2024.
A história mostra que a vacinação funciona. E mostra também o que acontece quando a proteção coletiva cai.

O problema não é apenas o governo. É o discurso
É nesse ponto que a discussão sobre o bolsonarismo entra de maneira mais contundente.
Durante a pandemia de Covid-19, Jair Bolsonaro transformou a vacinação em uma questão política. Defendeu medicamentos como cloroquina e ivermectina, apesar da ausência de eficácia comprovada para tratar Covid-19, e questionou repetidamente as vacinas.
A AFP, em suas checagens, documentou a insistência de Bolsonaro na defesa da hidroxicloroquina e do chamado “tratamento precoce”, apesar da ausência de eficácia comprovada e das recomendações contrárias de organismos de saúde.
A CPI da Pandemia também apontou o negacionismo relacionado ao vírus e às vacinas, além de suspeitas envolvendo negociações para compra de imunizantes e o uso de tratamentos sem respaldo científico. O relatório final recomendou o indiciamento de Bolsonaro e outras pessoas.
Outro episódio central foi a negociação com a Pfizer. Representante da empresa afirmou à CPI que o governo brasileiro recebeu ofertas de vacinas ainda em 2020 e não respondeu inicialmente às propostas.

O Brasil ultrapassou 600 mil mortes por Covid-19 em 2021. Uma pandemia é resultado de múltiplos fatores. Mas também seria incorreto apagar o papel das decisões federais, da comunicação presidencial, da promoção de tratamentos sem eficácia comprovada e da demora em determinados processos de aquisição e vacinação ao avaliar a resposta do governo à maior emergência sanitária do século.

Eduardo Bolsonaro mantém o discurso
Cinco anos depois da fase mais dramática da pandemia, a discussão reaparece dentro da própria família Bolsonaro.
Eduardo Bolsonaro publicou recentemente um vídeo no qual critica a obrigatoriedade da vacinação infantil e apresenta o modelo adotado no Texas como exemplo de “liberdade”. O episódio ganhou ainda mais repercussão porque o Texas é justamente uma região dos Estados Unidos que enfrentou forte surto de sarampo.
O conteúdo foi publicado em um momento particularmente simbólico: enquanto autoridades sanitárias brasileiras ampliam a vacinação para conter o sarampo, um dos filhos do ex-presidente utiliza suas redes sociais para defender maior liberdade para que pais deixem de vacinar seus filhos.
É uma escolha política.
E escolhas políticas têm consequências públicas quando envolvem doenças transmissíveis.
A ciência não vota, mas a política decide
Estudos acadêmicos já identificaram relação entre polarização política e posições favoráveis ou contrárias à vacinação no Brasil durante a pandemia. Pesquisadores encontraram forte influência da polarização sobre o comportamento antivacina nas redes sociais.
Outro estudo publicado em 2026 identificou aproximadamente 4 milhões de publicações em 119 canais brasileiros antivacina no Telegram, referentes ao período de 2020 a 2025. A pesquisa descreve a desinformação sobre vacinas como um dos fatores relacionados ao declínio da cobertura vacinal brasileira.

É aí que está o ponto político mais sério desta discussão.
Não é necessário provar que um governador bolsonarista “causou” um surto para cobrar responsabilidade política.
Governadores administram sistemas de saúde, definem prioridades, financiam campanhas, coordenam municípios, organizam equipes de vacinação e comunicam-se com a população.
E políticos nacionais influenciam milhões de pessoas por meio das redes sociais.
Quando uma liderança política coloca em dúvida a vacinação, ela não está apenas expressando uma opinião. Está interferindo em uma das ferramentas mais importantes de prevenção de doenças.

O eleitor precisa olhar para a saúde pública
As eleições de 2026 transformarão novamente a saúde em tema de disputa política.
Nesse cenário, o eleitor não deveria avaliar candidatos apenas por segurança pública, impostos, costumes ou alinhamento ideológico.

Também deveria perguntar:
Qual é a posição desse candidato sobre vacinas?
Ele confia na ciência e nas autoridades sanitárias?
Defende campanhas de imunização?
Combate ou compartilha desinformação?
Qual foi seu histórico durante a pandemia?
Como seu governo tratou a cobertura vacinal?
Essas perguntas são particularmente importantes diante do ressurgimento de doenças que o Brasil já havia conseguido controlar.
O sarampo não voltou porque existe um partido específico no poder. O vírus voltou a encontrar oportunidades porque existem pessoas suscetíveis, circulação internacional e falhas de cobertura vacinal.

Mas a política pode agravar ou enfrentar esse problema.
E é justamente por isso que o comportamento de Bolsonaro, de seus filhos e de seus aliados em relação às vacinas precisa ser lembrado quando o eleitor brasileiro for avaliar seus representantes em 2026.
A escolha eleitoral é individual. A consequência de uma política pública de vacinação, porém, é coletiva.
No debate sobre sarampo, Covid-19 e vacinação, a população brasileira tem diante de si uma pergunta que não é ideológica, mas concreta: quais políticos defendem a ciência e quais ajudam a enfraquecer a confiança nas vacinas?

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