Representantes dos policiais civis defendem piso nacional, reforço dos efetivos, investimento em investigação e maior participação dos profissionais da segurança na formulação de políticas públicas
O Foco Talks recebeu representantes da Polícia Civil para um amplo debate sobre os desafios da segurança pública brasileira, passando pela valorização profissional, déficit de efetivo, diferenças salariais entre os estados, avanço dos crimes cibernéticos e necessidade de maior integração entre as forças de segurança.
Participaram da conversa Jean Carlos, presidente da Confederação Brasileira dos Policiais Civis (Cobrapol), e Luana, representante sindical da Polícia Civil do Distrito Federal. Durante o programa, Jean afirmou que a confederação representa cerca de 200 mil profissionais ligados à investigação policial no país.
Um dos principais pontos abordados foi a disparidade existente entre as carreiras das polícias civis nos diferentes estados. Jean chamou atenção para as diferenças de remuneração e defendeu a criação de um piso nacional para a categoria, além de uma maior participação da União no financiamento da segurança pública. Segundo ele, enquanto áreas como educação e saúde contam com mecanismos nacionais de financiamento, a segurança ainda carece de uma estrutura semelhante.
Valorização do policial e condições de trabalho
A discussão foi além da remuneração. Os entrevistados ressaltaram que a valorização profissional também envolve condições adequadas de trabalho, assistência jurídica, saúde mental, qualidade de vida e proteção aos agentes e suas famílias.
Durante o programa, os representantes sindicais argumentaram que policiais convivem diariamente com situações de alto risco e pressão psicológica, especialmente em áreas dominadas pelo crime organizado e regiões de fronteira.
Jean relatou experiências envolvendo policiais que atuam em Mato Grosso do Sul, na fronteira com Paraguai e Bolívia, e citou episódios de violência contra unidades policiais. Para ele, essas situações ajudaram a motivar sua entrada no movimento sindical e, posteriormente, sua atuação em nível nacional.
Outro ponto defendido foi a criação de um piso nacional para os policiais civis. Luana destacou que existem diferenças significativas de remuneração para profissionais que exercem funções semelhantes em diferentes unidades da Federação. Ao mesmo tempo, ponderou que características locais e condições específicas de trabalho podem justificar adicionais diferenciados.
Déficit de policiais preocupa categoria
A falta de efetivo também ganhou espaço no debate. Ao tratar especificamente do Distrito Federal, Luana afirmou que a Polícia Civil enfrenta uma vacância expressiva em relação ao número de cargos previsto em lei. Segundo ela, a situação compromete a capacidade de atendimento à população e se torna ainda mais preocupante diante do crescimento populacional.
O problema, conforme discutido no Foco Talks, não estaria restrito ao DF. Jean afirmou que diferentes estados possuem efetivos inferiores aos previstos nas respectivas legislações, situação que, na avaliação dos representantes, dificulta principalmente o enfrentamento às organizações criminosas.
Crime migra para o ambiente digital
As transformações da criminalidade também foram tema da entrevista. Os participantes chamaram atenção para o crescimento dos crimes praticados no ambiente virtual e defenderam que a estrutura da segurança pública acompanhe essa mudança.
Na avaliação apresentada durante o programa, o fortalecimento das equipes de investigação é fundamental diante da expansão de golpes, fraudes e outros delitos cibernéticos. A discussão destacou que o patrimônio das vítimas está cada vez mais inserido no ambiente digital, exigindo especialização tecnológica e capacidade investigativa das forças policiais.
Para os representantes, não basta concentrar investimentos exclusivamente no policiamento ostensivo. É necessário equilibrar os efetivos e fortalecer a investigação para responder às novas modalidades criminosas.
Combate ao crime organizado
O enfrentamento às organizações criminosas foi outro eixo do programa. Ao comentar operações de grande porte, Jean afirmou que a morte de policiais representa uma perda que impede que qualquer operação seja considerada plenamente bem-sucedida. Ao mesmo tempo, defendeu maior presença do Estado em territórios dominados por facções e uma estratégia integrada de segurança.
A discussão também abordou o controle das fronteiras e a entrada de armas e drogas no país. Na avaliação apresentada por Jean, uma política nacional precisa combinar atuação nas fronteiras, integração entre os estados e valorização dos profissionais que estão na linha de frente.
Segurança pública precisa ouvir quem está nas ruas
Na reta final do Foco Talks, os convidados defenderam uma participação mais efetiva dos profissionais da área na elaboração das políticas públicas. Entre as propostas mencionadas esteve a criação de um Ministério da Segurança Pública com presença de profissionais que conheçam diretamente a realidade operacional.
Para os entrevistados, decisões sobre segurança não podem ficar restritas aos gabinetes. A formulação de políticas deveria considerar indicadores, dificuldades encontradas nas ruas, experiência dos profissionais e particularidades de regiões como grandes centros urbanos e áreas de fronteira.
Os participantes também reconheceram pontos positivos em propostas voltadas à maior integração das forças de segurança, mas ressaltaram que mudanças estruturais precisam ser acompanhadas da valorização de quem executa as políticas na prática. Na avaliação apresentada no programa, estrutura, tecnologia e integração perdem eficácia quando não há profissionais em número suficiente e com condições adequadas de trabalho.
Ao encerrar sua participação, Jean reforçou que a atuação das entidades representativas não deve ser vista apenas sob uma perspectiva corporativa. Segundo ele, a finalidade da valorização dos policiais é contribuir para que a sociedade tenha uma segurança pública de melhor qualidade e para que os profissionais possam exercer suas funções com tranquilidade e proteção.
O debate do Foco Talks evidenciou, assim, uma questão central: discutir segurança pública passa não apenas por viaturas, armas, tecnologia e novas leis, mas também pelas condições oferecidas aos homens e mulheres responsáveis por investigar crimes e enfrentar diariamente as organizações criminosas.
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