A nova herança do poder: quando o algoritmo vale mais que o dinheiro na política

 Uma vantagem invisível pode estar transformando a disputa eleitoral: comunidades digitais construídas fora da política chegam às eleições com um patrimônio de influência que dinheiro nenhum consegue reproduzir imediatamente.

Por Marcelo Senise

Imagine dois candidatos disputando a mesma eleição. Um deles investe recursos, contrata profissionais, produz vídeos e luta diariamente para conquistar a atenção das pessoas. O outro encontra milhares de seguidores já organizados, emocionalmente conectados e acostumados a compartilhar tudo o que publica.

Antes mesmo do primeiro debate, existe uma desigualdade que nenhuma pesquisa eleitoral consegue medir adequadamente.

Bem-vindo à era do capital algorítmico herdado.

É assim que venho chamando um fenômeno que merece ocupar o centro das discussões sobre comunicação política: o patrimônio de influência digital acumulado por comunidades que nasceram fora da política, mas podem transferir sua capacidade de mobilização para dentro dela.

Pense nos fãs de um artista, de um influenciador ou de uma celebridade. Durante anos, essas comunidades aprenderam a organizar mutirões, impulsionar assuntos, compartilhar conteúdos e defender seus ídolos. Desenvolveram vínculos emocionais, identidades coletivas e uma extraordinária capacidade de mobilização.

Quando parte dessa estrutura passa a defender uma causa ou um candidato, não começa do zero. Carrega consigo uma rede de relacionamentos, confiança e hábitos de engajamento que já existiam.

Enquanto uns precisam conquistar audiência, outros chegam à disputa carregando uma multidão digital.

É importante esclarecer que não estou afirmando que os algoritmos concedam privilégios permanentes a essas comunidades. A hipótese é mais complexa: o histórico de interação, a organização social e os vínculos previamente estabelecidos podem favorecer a circulação inicial de determinadas mensagens.

Não é uma herança automática do algoritmo. É uma herança de comportamentos humanos que encontra nos algoritmos um poderoso instrumento de distribuição.

E é justamente aí que a questão se torna inquietante.

Pesquisas científicas internacionais demonstraram que sistemas de recomendação podem produzir diferenças relevantes na amplificação de mensagens políticas. Um experimento publicado na revista PNAS, envolvendo milhões de usuários do antigo Twitter, demonstrou que a arquitetura de distribuição da plataforma interfere na visibilidade dos conteúdos.

Mas existe uma diferença fundamental entre mobilização legítima e manipulação artificial.

Uma comunidade de fãs que decide apoiar espontaneamente uma candidatura está exercendo um direito democrático. O problema surge quando essa capacidade de mobilização se mistura a estruturas automatizadas, contas sintéticas e operações coordenadas destinadas a produzir uma falsa percepção de apoio popular.

Nesse cenário, já não é necessário convencer milhões de pessoas. Pode bastar fazê-las acreditar que milhões já foram convencidos.

É aqui que o debate sobre capital algorítmico herdado encontra outro fenômeno que estamos investigando no IRIA — Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial: a contaminação cognitiva.

Em estudos realizados com o apoio tecnológico da plataforma integrada Sentinela Eleitoral/Polijetro, analisamos mais de 33 mil contas em ecossistemas políticos brasileiros. Aproximadamente 24% apresentaram indícios de provável automação. É um resultado relevante dentro do universo pesquisado, embora não possa ser generalizado para todas as redes sociais.

A preocupação não está apenas na quantidade de robôs. Está na possibilidade de que sistemas automatizados simulem comportamentos humanos, ampliem artificialmente manifestações políticas e alterem a percepção sobre aquilo que a sociedade realmente pensa.

Estamos acostumados a discutir fake news como se o maior perigo fosse acreditar em uma mentira. Mas existe algo potencialmente mais sofisticado: acreditar que determinada opinião representa a vontade da maioria simplesmente porque ela aparece repetidamente diante dos nossos olhos.

A psicologia social conhece há décadas o poder da conformidade e da influência dos grupos. O ambiente digital acrescentou velocidade, escala e novas possibilidades de simulação a esses mecanismos.

É preciso reconhecer, entretanto, que engajamento não significa automaticamente persuasão eleitoral. Demonstrar mudanças efetivas no comportamento do voto exige pesquisas específicas. O que está em discussão é a integridade do ambiente informacional em que essas escolhas são construídas.

A Europa já incorporou os riscos dos sistemas de recomendação às preocupações regulatórias sobre integridade eleitoral. No Brasil, ainda precisamos aprofundar uma pergunta fundamental: estamos protegendo apenas o conteúdo das mensagens ou também a transparência dos mecanismos que determinam sua circulação?

Depois de quase quatro décadas trabalhando com comportamento humano e comunicação política, percebo que estamos diante de uma transformação que vai muito além das campanhas eleitorais.

O poder político deixou de depender exclusivamente de quem consegue produzir a melhor mensagem. Passou a depender também de quem possui as estruturas capazes de fazê-la circular, ganhar visibilidade e parecer socialmente dominante.

O capital algorítmico herdado não é, por si só, uma fraude. É uma vantagem potencial de mobilização que precisamos compreender. A fraude começa quando se utiliza tecnologia para transformar artificialmente essa vantagem em uma aparência enganosa de consenso.

E talvez seja essa a grande questão da democracia contemporânea.

Se uma eleição pressupõe que cada cidadão tenha liberdade para escolher, o que acontece quando o ambiente onde essa escolha é formada pode ser artificialmente distorcido?

A urna registra o voto. Mas não registra as milhares de influências que o antecederam.

A próxima grande disputa pelo poder talvez não seja apenas para conquistar o voto do eleitor. Será para conquistar, antes dele, o ambiente onde o eleitor decide em que acreditar.

SOBRE O AUTOR

Marcelo Senise é sociólogo, estrategista político e presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial. Com 38 anos de experiência em comunicação política, é especialista em comportamento humano e inteligência artificial aplicada à política. Autor de A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política e da trilogia Blindagem Essencial, desenvolve estudos sobre neurobots, manipulação algorítmica e integridade cognitiva.

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