A indignação seletiva costuma ser o recurso final de quem tenta reconstruir a própria trajetória política.
O ex-governador e atualmente inelegível José Roberto Arruda (PSD) reapareceu nas redes sociais adotando um discurso crítico. Ele contestou a decisão do Banco de Brasília (BRB) de oferecer o Centro Administrativo do Distrito Federal (Centrad) e outros bens como garantia para viabilizar empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A proposta, que ainda precisa do aval da Câmara Legislativa do Distrito Federal, em sessão prevista para esta terça-feira (24), passou a ser explorada politicamente por grupos que defendem a inviabilidade do banco.
No vídeo divulgado no Instagram, Arruda não menciona que o chamado “elefante branco” de Taguatinga carrega sua assinatura desde a origem. Tampouco recorda que recebeu o apelido de “Parreira”, em referência ao suposto papel de articulador do esquema de propinas ligado ao projeto.
Idealizado durante a gestão de Arruda e inaugurado no governo de Agnelo Queiroz, o Centrad jamais entrou plenamente em funcionamento. Construído com a promessa de modernizar a administração pública, o complexo acabou marcado por entraves judiciais, suspeitas de irregularidades e desperdício de recursos.
A inauguração ocorreu mesmo diante de questionamentos, inclusive sobre a emissão de um habite-se posteriormente contestado. Desde então, a obra acumula impasses jurídicos que resultaram em custos elevados aos cofres públicos.
As investigações sobre o empreendimento tiveram início com a Operação Caixa de Pandora e avançaram na Operação Panatenaico, ligada à Operação Lava Jato no Distrito Federal.
Em relatório conclusivo, a Polícia Federal apontou Arruda como idealizador do modelo de Parceria Público-Privada (PPP) que, segundo as apurações, teria favorecido empreiteiras mediante pagamento de vantagens indevidas.
O conjunto arquitetônico inclui um prédio de 7.541 m² destinado à sede do governo. A entrega ocorreu de forma acelerada, sem que houvesse condições adequadas para receber servidores.
Auditoria realizada em 2016 pela Controladoria-Geral do DF identificou falhas no processo licitatório e na execução contratual, apontando prejuízos aos contribuintes. As inconsistências envolveriam desde a formatação da parceria até a conclusão das obras.
Executivos da Odebrecht, como João Pacífico e Ricardo Roth Ferraz, relataram ao Ministério Público Federal a existência de solicitações e pagamentos ilícitos relacionados ao contrato do Centrad.
Em 2018, a Justiça Federal aceitou denúncia contra Arruda por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. De acordo com o MPF, os valores circulavam por meio de contratos simulados e repasses em espécie para abastecer o esquema.
O caso também mantém conexão com a própria Operação Caixa de Pandora, conhecida como o “Mensalão do DEM”, que revelou um amplo sistema de arrecadação ilegal envolvendo grandes obras públicas — entre elas, o Centrad.
As apurações indicaram que o mecanismo teria caráter suprapartidário, atravessando diferentes gestões e aproximando adversários políticos em torno dos mesmos interesses financeiros.
Todo esse histórico está reunido em um extenso inquérito, com centenas de páginas, que segue em tramitação judicial.
Diante desse contexto, causa estranheza que o responsável pela concepção do Centrad agora se coloque como guardião de um patrimônio que permanece subutilizado e deteriorado.
O debate sobre a utilização do imóvel para garantir operações financeiras deve ocorrer de forma transparente e responsável. No entanto, é fundamental que seja conduzido com base em fatos completos — inclusive aqueles que explicam por que o empreendimento nunca cumpriu sua finalidade.
O Distrito Federal não pode se deixar conduzir por discursos seletivos nem por manifestações de indignação que ignoram o passado e a responsabilidade na criação de um dos maiores símbolos de desperdício e suspeitas de corrupção na capital.
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