O brado da leoa: decisões à mesa do poder econômico

 A governadora Celina Leão finalmente ocupa o espaço que antes lhe era negado e entra em cena para tentar evitar o colapso do BRB

Celina Leão chegou a um ambiente onde, até pouco tempo, não tinha voz nem presença — e foi direta: não tinha conhecimento do que havia ocorrido. Desta vez, não se trata de retórica. Sem ter sido incluída, consultada ou sequer informada sobre as tratativas conduzidas pelo então governador Ibaneis Rocha e pelo ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, a agora governadora participou, em São Paulo, de uma reunião com figuras centrais do sistema financeiro nacional para tentar impedir o pior cenário: uma intervenção no Banco de Brasília, que enfrenta sérios riscos de liquidez.

Na manhã da última quinta-feira (9/4), Celina esteve com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para discutir a situação crítica da instituição financeira.

O encontro reuniu nomes de grande peso no mercado, pessoas que influenciam diretamente a economia do país. Também estavam presentes representantes do Fundo Garantidor de Créditos, responsáveis por decisões que podem determinar a recuperação ou a quebra de um banco. Entre os participantes, destacou-se o banqueiro André Esteves, do Banco Pactual, peça-chave em uma trama que envolve estratégia, poder e interesses. Foi ele quem apresentou uma proposta capaz de reorganizar o BRB e evitar que o banco público entre em colapso. Uma iniciativa que não surge por acaso, mas por cálculo e oportunidade.

Há, porém, um ponto relevante nessa história: o mesmo André Esteves já havia tentado adquirir o Banco Master, pertencente a Daniel Vorcaro, com uma proposta que priorizava assumir os passivos sem dividir ganhos. A negociação não avançou, pois Vorcaro recusou os termos.

Antes de encerrar o processo, no entanto, o Banco Pactual realizou uma análise aprofundada da instituição. O que encontrou foi preocupante: contratos duvidosos, operações pouco transparentes e indícios de irregularidades que mais tarde vieram à tona em forma de escândalo. O caso ganhou proporções maiores, envolvendo tanto o mercado financeiro quanto o cenário político.

Quando a crise se tornou pública, o BRB ainda estava sob a gestão de Paulo Henrique Costa, respaldado politicamente por Ibaneis Rocha. O resultado foi um prejuízo significativo, que levanta questionamentos e motivou investigações, incluindo a atuação da Polícia Federal.

Durante esse período, Celina Leão ocupava a vice-governadoria, mas sem participação efetiva nas decisões. Ficou à margem de um governo que agora deixa consequências delicadas. Ainda assim, após os episódios de 8 de janeiro, foi ela quem assumiu a liderança e garantiu estabilidade administrativa. Nos bastidores, porém, seu nome não era unanimidade como sucessora.

Ibaneis deixou o cargo com o objetivo declarado de disputar o Senado, mas o desgaste político pode influenciar esse caminho.

Ao assumir o governo, Celina adotou uma postura diferente: falou abertamente e afirmou não ter participado das decisões anteriores, reforçando que não tem responsabilidade sobre os problemas atuais. Até o momento, não há evidências que contradigam essa versão.

Munida dessa posição, ela foi a São Paulo negociar soluções. Conversou com lideranças do setor, avaliou propostas e buscou reconstruir a credibilidade da instituição.

Com apoio técnico do Banco Central e do Fundo Garantidor de Créditos, a governadora trabalha para evitar a intervenção no BRB e impedir que os prejuízos atinjam a população do Distrito Federal. Entre as propostas discutidas, está uma oferta de R$ 15 bilhões, sendo R$ 4 bilhões imediatos e R$ 11 bilhões em participação acionária. Celina, no entanto, adota cautela na análise.

O BRB segue em uma situação delicada, mas, pela primeira vez desde o início da crise, está sob comando de alguém que não participou de sua origem — o que, no cenário atual, já representa uma mudança significativa.

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