Envelhecer onde a vida aconteceu: os condomínios estão preparados?

O movimento global conhecido como aging in place representa o desejo de envelhecer na própria casa, perto dos amigos, dos vizinhos e das referências construídas ao longo da vida

por Paulo Melo*

Mais do que permanecer dentro de um imóvel, significa preservar vínculos, memórias, autonomia e sentimento de pertencimento.

Esse movimento, no entanto, traz uma pergunta urgente: os condomínios brasileiros estão preparados para acolher uma população que envelhece rapidamente?

Os números mostram que não podemos adiar esse debate. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, o Brasil possui mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em apenas 12 anos, o número de brasileiros com 65 anos ou mais cresceu 57,4%.

Essa transformação demográfica já pode ser percebida dentro dos edifícios e conjuntos residenciais. Muitos moradores que chegaram aos condomínios ainda jovens hoje estão com 70, 80 ou 90 anos. Outros perderam seus companheiros, viram os filhos mudarem de cidade e passaram a morar sozinhos.

O Estatuto da Pessoa Idosa estabelece que a família, a comunidade, a sociedade e o poder público compartilham a responsabilidade de assegurar, com prioridade, os direitos das pessoas idosas. O condomínio, como uma das comunidades mais próximas da vida cotidiana, também precisa fazer parte dessa rede de proteção.

Quando a solidão se transforma em risco
Em Brasília, convivemos com relatos frequentes e profundamente dolorosos de pessoas idosas que morrem sozinhas em seus apartamentos e somente são encontradas cinco ou seis dias depois, quando familiares, vizinhos ou funcionários percebem que alguma coisa está errada.

Não podemos aceitar isso como algo normal.

Não se trata de invadir a privacidade do morador nem de retirar sua autonomia. Trata-se de criar, com sua autorização, uma rede mínima de atenção. Uma ligação, uma mensagem, uma visita do vizinho ou uma observação cuidadosa feita pela portaria podem evitar que uma emergência permaneça invisível durante vários dias.

O condomínio não substituirá a família, os serviços de saúde, os cuidadores ou o poder público. Mas poderá atuar como uma ponte. Muitas vezes, o porteiro, o zelador ou o vizinho é a primeira pessoa a perceber que determinado morador não apareceu, não buscou uma encomenda, deixou de realizar uma atividade habitual ou apresentou uma mudança repentina de comportamento.

Esse olhar não pode ser de vigilância. Precisa ser um olhar de cuidado.

Um novo papel para síndicos e funcionários
Os síndicos precisam conhecer melhor a realidade da população idosa de seus condomínios. Uma medida importante é realizar um levantamento voluntário dos moradores que vivem sozinhos, registrando contatos de emergência e informações essenciais para situações de urgência.

Esse cadastro deve ser feito com consentimento do morador, ter finalidade claramente definida e ser protegido contra acessos indevidos. A pessoa idosa não pode ser constrangida a fornecer informações, nem ter sua rotina exposta aos demais moradores.

Também é recomendável criar um protocolo de atenção para situações fora do padrão. Caso um morador previamente cadastrado deixe de responder a contatos combinados, não seja visto por um período incomum ou acione um equipamento de emergência, a portaria deverá saber quem chamar e quais providências tomar.

Síndicos, porteiros, zeladores e demais funcionários podem receber treinamentos básicos para identificar situações que exigem atenção, como quedas, desorientação repentina, dificuldade incomum de locomoção ou pedidos de ajuda. Eles não devem fazer diagnósticos ou assumir funções médicas, mas precisam estar preparados para acionar rapidamente os familiares e os serviços públicos de emergência.

Tecnologia a serviço da autonomia
Entre as soluções que podem ser adotadas estão os botões de pânico instalados nos apartamentos e integrados à portaria ou a uma central de atendimento. Caso o morador passe mal, sofra uma queda ou não consiga chegar ao telefone, poderá pedir ajuda com apenas um toque.

Também existem relógios, pulseiras e sensores capazes de enviar alertas a familiares ou contatos autorizados em situações previamente configuradas. Alguns sistemas identificam períodos prolongados de inatividade, sempre respeitando a decisão, a privacidade e o consentimento do usuário.

A tecnologia deve oferecer segurança sem transformar a residência em um ambiente de controle permanente. Por isso, o sistema precisa ser escolhido junto com a pessoa idosa e, quando necessário, com sua família. O morador deve saber quais informações serão coletadas, quem receberá os alertas e o que acontecerá depois de cada acionamento.

Além da tecnologia, o condomínio pode adotar um sistema simples de contato periódico. Uma ligação diária, uma mensagem em horário combinado ou um sinal definido pelo próprio morador podem funcionar como confirmação de que está tudo bem.


Acessibilidade é prevenção
Preparar os condomínios para o envelhecimento também exige mudanças físicas. Corrimãos, rampas adequadas, pisos antiderrapantes, boa iluminação, sinalização legível, elevadores em boas condições, bancos para descanso e rotas livres de obstáculos beneficiam não apenas as pessoas idosas, mas todos os moradores.

As áreas comuns devem ser avaliadas regularmente. Um pequeno desnível, uma lâmpada queimada ou um piso escorregadio podem representar riscos consideráveis para quem possui mobilidade reduzida. A legislação brasileira determina a eliminação de barreiras e a promoção da acessibilidade para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

A prevenção deve chegar também às unidades residenciais. Os condomínios podem promover palestras e campanhas sobre iluminação, tapetes soltos, barras de apoio, organização dos móveis e outros cuidados que reduzam o risco de acidentes domésticos.

Convivência também é cuidado
Um condomínio preparado para o envelhecimento não deve oferecer apenas segurança física. Precisa combater o isolamento.

Cafés comunitários, rodas de conversa, atividades culturais, caminhadas acompanhadas, oficinas de inclusão digital e encontros entre diferentes gerações são ações simples, mas capazes de fortalecer os vínculos entre moradores.

O síndico pode incentivar a criação de uma comissão de apoio à pessoa idosa, formada por moradores voluntários. Essa comissão poderá organizar atividades, identificar necessidades coletivas e aproximar o condomínio de unidades de saúde, centros de assistência social e instituições especializadas.

É fundamental, porém, que as pessoas idosas sejam ouvidas. Não devemos decidir tudo por elas. Cada morador possui uma história, um grau de autonomia e necessidades diferentes. Alguns desejam participar de todas as atividades; outros preferem uma rotina mais reservada. Cuidar também significa respeitar escolhas.

Orientações práticas para os síndicos
Todo condomínio deveria considerar a adoção das seguintes medidas:

  1. Manter um cadastro voluntário e protegido de pessoas idosas que moram sozinhas, com contatos de emergência atualizados.
  2. Criar um protocolo para acionamento de familiares, serviços de emergência e órgãos de assistência social.
  3. Avaliar a instalação de botões de pânico conectados à portaria ou a uma central preparada para responder aos chamados.
  4. Oferecer treinamento periódico a condôminos, porteiros, zeladores e funcionários.
  5. Realizar inspeções de acessibilidade e corrigir riscos nas áreas comuns.
  6. Promover atividades de convivência e integração entre gerações.
  7. Estabelecer formas consentidas de contato periódico com moradores em situação de maior vulnerabilidade.
  8. Incluir ações voltadas às pessoas idosas no planejamento e no orçamento anual do condomínio.
O condomínio do futuro será uma comunidade de cuidado
O envelhecimento da população não é um problema. É uma conquista social. O desafio está em preparar nossas cidades, moradias e relações comunitárias para que as pessoas possam viver mais tempo com dignidade, autonomia e segurança.

O condomínio do futuro não será apenas um conjunto de apartamentos protegido por muros, câmeras e portões. Será uma comunidade capaz de perceber ausências, acolher fragilidades e agir diante de uma emergência.

Síndicos e funcionários precisam desenvolver um olhar diferenciado para as pessoas idosas, especialmente aquelas que vivem sozinhas. Isso não significa tratá-las como incapazes. Significa reconhecer que a independência se torna mais segura quando existe uma rede de apoio por perto.

Envelhecer em casa deve continuar sendo uma escolha possível. Para isso, não basta adaptar os apartamentos. Precisamos adaptar nossa forma de conviver.

Nenhuma pessoa deveria permanecer dias sem ser encontrada depois de uma emergência. E nenhum morador deveria sentir que está completamente sozinho dentro de uma comunidade com dezenas ou centenas de vizinhos.

Os condomínios brasileiros terão de assumir sua parte nessa transformação. O cuidado com as pessoas idosas não é um favor. É responsabilidade, respeito e compromisso com o futuro de todos nós.

*Paulo Melo é jornalista, administrador, professor está síndico e presidente do Instituto Nacional de Condomínios e Cidades Inteligentes - INCC.

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