Diálogos do banqueiro Daniel Vorcaro expõem intimidade com Frederic Kachar, patrocínios milionários e tentativas de interferir na cobertura jornalística sobre o Master e o BRB
O dinheiro compra publicidade, camarotes, festas de luxo e até conteúdos jornalísticos em alguns veículos de comunicação, onde a publicidade se camufla. Não deveria comprar a independência de uma redação.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, tinha acesso direto a Frederic Kachar, então diretor-geral da Editora Globo, uma das principais empresas do maior conglomerado de comunicação do país. Os dois discutiam negócios milionários, encontros privados com jornalistas e reportagens que contrariavam os interesses do banqueiro. Uma relação de intimidade na qual amizade, publicidade e jornalismo se aproximavam perigosamente.
As conversas extraídas do telefone de Daniel Vorcaro, que abrangem o período de outubro de 2023 a julho de 2025, revelam um relacionamento que ultrapassava as negociações comerciais. Havia convites para festas particulares, onde “todo mundo nu casamento das marias”, viagens internacionais, encontros reservados e confidências pessoais.
Em maio de 2024, durante um evento em Nova York, Vorcaro convidou Kachar para uma festa privada, num local fechado, sem celulares, um verdadeiro bacanal. O executivo aceitou. A intimidade era tamanha que o banqueiro o tratava como “convidado de honra”.

A amizade também movimentava cifras milionárias. Em fevereiro de 2025, Kachar apresentou a Vorcaro propostas de patrocínio para o Baile da Vogue e o Carnaval. O Banco Master aparecia com cotas de até R$ 1,2 milhão para o baile e R$ 3,3 milhões para o Carnaval.
Outras marcas relacionadas aos negócios do banqueiro, como Desincha, Veste, BeFly e Happy Aging, integravam as negociações. Em outra conversa, o executivo mencionou R$ 500 mil para a Vogue e R$ 800 mil para um camarote. Vorcaro respondeu que queria acertar o financeiro. Os valores demonstram a dimensão das tratativas.


O relacionamento abria portas na estrutura da Globo. Em março de 2024, Vorcaro participou de um encontro nas instalações da empresa, no Rio de Janeiro, organizado por Kachar. O banqueiro pretendia discutir um grande projeto de publicidade na televisão. Depois da reunião, agradeceu e pediu que o executivo coordenasse novos encontros.
Em dezembro, afirmou ter fechado com Luciano Huck e a Globo uma iniciativa para o lançamento do Will Bank. A mensagem registra a declaração do banqueiro, sem esclarecer os termos definitivos do acordo.


A influência pretendida por Vorcaro não se limitava aos negócios bancários. Em outubro de 2024, pediu a Kachar uma campanha para a Happy Aging, empresa associada à então namorada Martha Graeff. Queria publicidade e, se possível, uma capa da Vogue. Kachar respondeu que encaminharia pautas para Vogue, Marie Claire e Ela.
Três dias depois, os veículos publicaram reportagens sobre o lançamento da empresa. Vorcaro agradeceu. A sequência documenta o pedido, o encaminhamento e as publicações, levando a crer que as matérias tenham sido compradas ou determinadas pelo executivo.





O ambiente ficava mais delicado quando o banqueiro não gostava do que lia. A jornalista Malu Gaspar tornou-se alvo frequente de suas reclamações. Em abril de 2024, Vorcaro protestou contra publicações relacionadas a um evento em Londres patrocinado pelo Master e frequentado por autoridades do Judiciário.
Kachar respondeu que não poderia censurar colunistas, mas ofereceu-se para aproximá-lo da jornalista. Em julho, organizou uma reunião entre os dois no escritório do banco, em São Paulo. As mensagens registram a chegada dos participantes, sem revelar o conteúdo da conversa.







Lauro Jardim também aparece na relação. Kachar comentou que Vorcaro havia estabelecido uma linha direta com o colunista e se tornado fonte de informações. Em fevereiro de 2025, o banqueiro afirmou ter prometido a Lauro exclusividade sobre uma negociação societária.
A troca de informações entre fontes e jornalistas é legítima. O ponto sensível é sua coexistência com patrocínios milionários e reclamações dirigidas à direção da editora.






A relação ganhou outra dimensão quando o Banco de Brasília entrou na história. Em 23 de janeiro de 2025, dois meses antes do anúncio da tentativa de compra do Master pelo BRB, o então governador Ibaneis Rocha participou de uma reunião em Zurique, na Suíça, com Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília, e um quarto participante identificado nos registros divulgados como Leonardo.
A reunião foi noticiada pela TV Globo com base em documentos da Polícia Federal encaminhados ao Supremo Tribunal Federal. A defesa de Ibaneis nega que ele tenha interferido nas decisões do BRB. Mas fica indefensável quando outros documentos obtidos pela Polícia Federal se somam e lançam luz sobre os fatos.

Paralelamente aos contratos milionários e à intimidade cultivada com Frederic Kachar, Daniel Vorcaro mantinha uma relação contraditória com André Esteves, controlador do BTG Pactual, e com veículos de comunicação. Os dois banqueiros conversavam, encontravam-se e discutiam assuntos relacionados às instituições financeiras.
André Esteves, reconhecido na Faria Lima, incomodava-se com a ascensão de Daniel Vorcaro entre os grandes, mas disfarçava e mantinha a cordialidade, enquanto se escondia uma disputa de interesses. À medida que a negociação entre Master e BRB avançava, Vorcaro passou a desconfiar de Esteves. Em mensagens atribuídas ao banqueiro, acusava o rival de atuar nos bastidores para dificultar a operação, inclusive junto ao Banco Central.
Vorcaro, que buscava proteção para seus negócios, começava a enxergar no antigo interlocutor um adversário com acesso aos mesmos centros de poder.
A guerra também alcançava a imprensa. Vorcaro atribuía a concorrentes parte das reportagens negativas sobre o Master e reclamava da repercussão de informações que considerava prejudiciais. André Esteves aparecia nesse ambiente de desconfiança.
Há prova de que tenha comandado uma campanha jornalística e tenha sido o responsável por revelar o escândalo Master–BRB. Esteves é proprietário da revista Veja, controlada pela Editora Abril, sob o comando empresarial de Fábio Carvalho.
O contraste, ainda assim, é revelador: enquanto Vorcaro cobrava de Kachar o peso da parceria comercial com a Globo, acusava adversários de utilizar influência e acesso à imprensa contra ele. O banqueiro parecia acreditar que a batalha financeira também seria decidida nas manchetes.





















Em 28 de março de 2025, o BRB anunciou a tentativa de adquirir 58% do Master, em uma operação inicialmente apresentada por aproximadamente R$ 2 bilhões. No dia seguinte, Vorcaro procurou Kachar para reclamar de uma análise do Valor Econômico que apontava ressalvas do mercado.
Questionou o título, as fontes e o tratamento dado ao negócio. Afirmou que, entre dezenas de veículos, o Valor havia sido o único a prejudicá-lo. O banqueiro invocou a parceria com o grupo e disse sentir-se um bobo por privilegiar seus jornalistas e receber críticas.
Kachar discordou e defendeu a necessidade de ouvir o mercado, reconhecendo apenas que a análise deveria ter incluído a posição de Vorcaro.






No dia seguinte, Vorcaro sugeriu envolver Paulo Henrique Costa numa conversa com Kachar. O executivo preferiu falar primeiro com o banqueiro e deixar uma reunião posterior com o presidente do BRB. A proposta surgiu em meio às reclamações sobre a cobertura da aquisição.
O histórico demonstra que Paulo Henrique participou de reunião e que Ibaneis manteve contato com Kachar.


Em 1º de abril, Vorcaro voltou a reclamar de Malu Gaspar. Pediu expressamente que Kachar acompanhasse de perto a cobertura da jornalista, criticando a retomada de assuntos envolvendo a CVM, Guido Mantega e outros personagens.
O executivo respondeu que tentaria conversar com ela, mas rejeitou a suspeita de que estivesse sendo mobilizada por concorrentes. Disse que Malu era livre e que ninguém a escalava para atacar o banqueiro. A resposta registra resistência à tentativa de influência, mesmo diante de um interlocutor comercial importante.




A documentação é apresentada como parte do material extraído dos aparelhos celulares de Daniel Vorcaro no âmbito da investigação da Polícia Federal sobre o escândalo Master–BRB, que tramita no Supremo Tribunal Federal, sob a relatoria do ministro André Mendonça.
O acervo de dados dos celulares do banqueiro foi objeto de procedimentos oficiais de extração e preservação. Os diálogos aqui reproduzidos contêm registros precisos de datas, horários, interlocutores e negociações.
O conjunto revela uma relação de proximidade pessoal e comercial entre Vorcaro e Kachar, marcada por negócios milionários, acesso a executivos e interlocução com jornalistas. Mostra também o banqueiro tentando mobilizar esse relacionamento para contestar e influenciar a cobertura de seus negócios, especialmente durante a negociação com o BRB, presidido por Paulo Henrique Costa no governo Ibaneis Rocha.
A atuação de Frederic Kachar impõe uma pergunta à direção da Globo: quais barreiras efetivas separavam os interesses de um anunciante milionário das decisões de suas redações?

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